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Leniza Kautz Menda

Amós Oz: o poder da imaginação e o embrião do escritor

18.12.2015

Como nasce um grande escritor? O que o torna um bom escritor? No livro de Amós Oz “De Amor e Trevas”, lançado pela Companhia das Letras, temos alguns indícios de tal gênese.

A influência do meio em que Oz foi criado revelou-se imprescindível na sua formação como escritor. Apesar da situação financeira precária, a casa do menino sempre estava repleta de livros, o que refletia o amor à cultura, um valor inerente ao “Povo do Livro”. “A única coisa que tínhamos em abundância eram livros, incontáveis, de parede a parede, no corredor, na cozinha, na entrada em em todos os peitoris. Milhares de livros em todos os cantos da casa. Havia um sentimento de que as pessoas vão e vêm, nascem e morrem, mas os livros snao eternos”. (p.30)

O pai de Amós Oz, um insaciável “caçador de livros”, tinha uma relação sensual com os mesmos, a ponto de apalpá-los, cheirá-los e acariciá-los. Assim, no momento em que faltavam mantimentos para o Shabat, ele se via obrigado, pungido pela dor, a vender algum exemplar de sua biblioteca para suprir a casa com pão, ovos, queijo ou uma lata de carne em conserva. Esse ato era considerado pelo pai de Oz como um verdadeiro “sacrifício de Isaac”.

O tio de Oz, Yossef, também possuía um amor incondicional pelos livros. Amós descreva a presença dos livros na casa do tio valendo-se de adjetivos inusitados e de antropoformismos que tornam tais objetos criaturas vivas e influentes na vida do menino escritor. “…livros pesados e vaidosos, encadernados em ouro e com gravações douradas e livros leves, com precárias capas de papel, livros ricaços, enfeitados, obesos e livros mendigos…” (p.50). o gosto pela leitura de seus pais bem como o acervo literário do qual estava cercado o garoto OZ indubitavelmente exerceram uma enorme influência em sua carreira literária e em sua formação como escritor.

O poder da imaginação se faz presente no universo de Oz desde a mais tenra idade. Em suas brincadeiras infantis, o futuro escritor, rodeado pelos seus brinquedos, entre os quais cubos de madeira, colherinhas, almofadas, guardanapos, uma pantera flexível de veludo, pedras de dominó e uma boneca um tanto surrada, com um leve cheiro de mofo, enfim, com brinquedos singelos, o menino cria um mundo imaginário em que a princesa era prisioneiro de um feitiço mau (a pantera)que a mantinha encerrada numa caverna (embaixo do piano) , as colherinhas eram uma esquadrilha de aviões farejadores que voavam à procura da princesa sobre o oceano (o tapete) e para aalém das montanhas (as almofadas), as pedras de dominó eram lobos maus que o feiticeiro tinha espalhado pela floresta, em volta da caverna onde a princesa estava presa.

O poder da imaginação de Oz é tão forte que serve de mola propulsora à modificação da realidade. Na época em que Oz era criança, a Palestina estava sob Mandato Britânico, período de muita opressão e falta de liberdade para os judeus daquela região. Através dos brinquedos e da fértil imaginação, Oz tenta reverter a realidade cruel atacando o quartel Allemby, a fortaleza do governo britânico na região sul de Jerusalém, conquistando e forçando sua capitulação, promovendo a rendição geral e hasteando no mastro mais alto a bandeira hebraica em seus jogos de tapete.

A grandeza da escrita de Oz se revela no jogo de palavras, nas comparações estabelecidas bem como nas descrições usadas nas narrativas, as quais são recheadas de imagens visuais, tais como na descrição de seu apartamento que fora escavado na encosta uma montanha a qual é antropomorfizada por Oz na comparação a um “vizinho pesado, introvertido e silencioso”. (p.7)

Embora a imaginação do menino-escritor seja abundante, ela não se mostra capaz de reverter a história real. Sobre o tapete, o menino construía uma espécie de realidade virtual – na época não havia computadores – mandando seus singelos brinquedos de madeira e plástico para diferente posições, de modo que, deslocando exércitos e divisões, ele pudesse salvar Jerusalém da destruição pelas tropas Tito ou obtivesse vitória judaica na defesa da fortaleza de Massada.

Os desejos inconscientes Amós Oz vêm à tona quando ele assim se expressa: “E a verdade é que essa estranha vontade que eu tinha quando pequeno – a de dar uma segunda chance ao que não tem nem vai ter segunda chance – é uma das coisas que impelem a minha mão também agora – toda vez que me sento para escrever uma história”. (p.35)

Oxalá Oz pudesse ter revertido o suicídio de sua mãe quando ele contava apenas com 12 anos de idade. Oxalá as crianças de hoje voltassem a ter brinquedos menos sofisticados e pudessem, com a simplicidade de brincar, usar o poder da imaginação para a criação de brincadeiras saudáveis e isentas da violência dos inúmeros videogames que as cercam. Oxalá nós pudéssemos ter revertido as várias guerras travadas entre israelenses e palestinos. Tomara que, com o poder da imaginação, a determinação de viver dos israelenses e palestinos, a criatividade e a boa vontade da diplomacia mundial, consigamos vencer a guerra contra o terrorismo. Que não fique nos jogos de tapete de Amós Oz.

1 Comentário a Amós Oz: o poder da imaginação e o embrião do escritor

  1. Elisabete Brito Rodrigues's Gravatar Elisabete Brito Rodrigues
    28 de dezembro de 2015 at 20:33 | Permalink

    Gostaria de conhecer outras obras de Amós Oz. Gosto muito de ler pois, sou professora de literatura.

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