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Fabio Lavinsky

Algumas Ilusões de Óptica do Conflito Israel-Palestinos

25.01.2016

לֹא תַעֲשׂוּ עָוֶל בַּמִּשְׁפָּט לֹא תִשָּׂא פְנֵי דָל וְלֹא תֶהְדַּר פְּנֵי גָדוֹל בְּצֶדֶק תִּשְׁפֹּט עֲמִיתֶךָ

ויקרא פרק יט, פסוק טו

Não cometerás injustiça no julgamento; não deves favorecer o mais pobre ou respeitar o homem celebre. Com justiça julgarás o próximo.

Levítico, 19:15.

 

 

Uma das maiores degradações éticas do novo milênio é a compulsão na busca de posicionamentos politicamente corretos a despeito dos fatos. Muitas vezes esta posição é totalmente desprovida de conhecimento histórico mínimo. E pior ainda, normalmente ela ignora os eixos de causa e de consequência, e transforma o algoz  em vítima e a vítima em algoz.

A torcida pelo “underdog” (o mais fraco) é parte da natureza humana. Quando assistimos um jogo de futebol, uma luta ou até mesmo um enfrentamento entre animais em canais de natureza na TV, tendemos a torcer pelo mais fraco. E sabendo que isso é humano a Torá nos ensina o passuk citado acima. Devemos julgar de forma justa nossos semelhantes. Partir do princípio que por alguém ser fraco, pobre, ou perdedor, este alguém deve ser favorecido é errado. É “avel”, em hebraico, uma injustiça. Da mesma forma que o oficialismo cego e quase vassalo que alguns assumem evitando muitas vezes autocriticas e sempre favorecendo o mais forte também é “avel”.

Esta problemática se aplica de forma profunda em uma das questões mais importantes do conflito Israel x Palestinos: A guerra de propaganda. Atualmente o conhecimento humano se degradou do enciclopédico para o wikipédico e finalmente para o memepédico. Hoje as pessoas entendem fenômenos ultra-complexos via memes de redes sociais e via posts “efeito manada” de veículos de mídia “livre” abertamente tendenciosos e repletos de vieses ideológicos. Estes veículos fazem propaganda de ódio anti-Israel sem pudor nenhum.

É muito complicado quebrar este paradigma. Muitos acadêmicos e ideólogos, principalmente de esquerda, colocaram os palestinos na caixinha dos oprimidos pelas forças brutais do imperialismo colonial capitalista e Israel na caixinha das potências nucleares alinhadas com os Estados Unidos.

Eles não se darão o trabalho de entender que desde a queda do muro de Berlim os EUA promoveram as conversações de Madrid em 1991 e eles tem uma política clara de forçar a criação de um estado palestino. Os EUA tentaram a todo custo empurrar esta política goela abaixo dos dois lados sem sucesso. Desde a criação da autoridade palestina após os acordos de Oslo em 1993, ela recebeu mais de 25 vezes do que a Europa recebeu durante o plano Marshall pós-segunda guerra. Durante o período dos presidentes Bill Clinton e George W. Bush se ofereceu a autoridade palestina a possibilidade real de um estado, mas sempre se criaram entraves e falsos dilemas para esquivar-se.

Por que houve esquiva? A resposta é a grande ilusão de óptica do conflito. A grande causa da tragédia palestina é a utopia na qual se amalgamou a sua identidade nacional . A utopia do sionismo é existir. A utopia do palestinismo se tornou fazer o sionismo inexistir. E esta é uma posição racista e suprematista. Ela foi se modificando no formato e nos atores de propaganda, de apoio e de ações no decorrer do tempo, mas a raiz é a mesma: negacionsimo do direito do povo judeu de se autodeterminar em (qualquer) parte de terras supostamente árabes.

Então o que parece ocupação na verdade é resistência de Israel frente a uma ideologia que jura destruí-la, e o que parece resistência na verdade é um afã destrutivo de cunho sectário e suprematista. Para o sionismo um estado palestino não é conflitivo com a perenidade da revolução, pelo contrário. O sionismo se concretizaria com o território proposto pela comissão Peel, pela resolução 181 e depois com as fronteiras da linha verde.

A questão é o oposto: o movimento racista BDS (boicote, desinvestimento e sanções) canta claramente: “do rio ao mediterrâneo palestina será livre”. Nada menos que “tudo” é aceitável. O movimento nacional palestino está novamente se radicalizando nos seus pleitos e retrocedendo de forma aberta no sentido que pretende estabelecer seu estado em toda a chamada “palestina histórica”.

A semântica de ocupação usada pelos palestinos que estava alinhada com a da esquerda sionista deve ser totalmente revista pela nossa parte. O que eu chamo de ocupação é totalmente díspar do que um ativista palestino chama. Eu não posso mais usar o termo ocupação. É suicídio semântico. Para um sionista de esquerda a ocupação se refere muito mais as políticas de mitigação de direitos civis nos territórios fora da linha verde. Estas envolvem os melhores jovens que servem na Tzava e consequentemente geram desafios intransponíveis e põem em cheque a democracia e a demografia israelense. Já o “mainstream” palestino chama Haifa e Tel Aviv de ocupadas. Chama Monte Scopus de ocupado. Toda a narrativa é de negar a legitimidade de Israel e buscar a solução de um estado para dois povos, no caso dos moderados, e soluções piores e sanguinolentas, no caso dos setores islamistas da sociedade palestina. O objetivo é o mesmo: acabar com Israel, acabar com o sionismo. A via mais óbvia que corrobora com este fato, além das pesquisas de delineamento muitas vezes duvidoso, é o fato da intransigência na abdicação e ou na flexibilização do direito de retorno dos refugiados palestinos.

No caso dos conflitos armados há outra grande ilusão de óptica. A análise é feita de forma transversal. Se faz uma fotografia de 2016 e se busca conclusões desconectadas com a história e com as estratégias de ambos os lados. Não se leva em conta que nos anos 20 e 30 Israel era mais fraca e sofria massacres, nos anos 40 até 70 havia equilíbrio de forças e Israel perdeu milhares de seus filhos em guerras e atentados terríveis onde saiu vitoriosa de forma muitas vezes milagrosa e a ferro e fogo. Atualmente, mesmo sendo uma potência supostamente nuclear, Israel foi colocada sob o fogo de foguetes que atingiram mais de 4 milhões de civis inocentes e suas principais cidades e mesmo assim teve muita dificuldade em poder se defender apenas pelo fato de ser supostamente mais forte.

As grandes corporações de jornalismo exploram muito o viés anti-israelense. As vezes de forma involuntária, mas muitas vezes de óbvia má fé. Há militantes especializados em criar cenas fictícias de sofrimento e de desequilíbrio de forças, o que foi chamado de forma jocosa de “Paliwood”. Esta busca de engambelar a opinião pública chegou em um ponto absurdo na última guerra de Gaza onde o próprio líder do Hamas assume o uso de crianças como escudos humanos e peças de propaganda e mesmo assim a opinião pública internacional não se insurge. Ao contrário do que ocorre dentro da Síria, onde o jornalismo tem difícil acesso e ocorrem barbáries estilo o sitio que o Hezbollah fez em Madaya matando crianças de inanição que foi descoberto apenas meses depois, cada pedra e cada bala do conflito entre palestinos e israelenses é documentada a exaustão como que se colocadas em um microscópio jornalístico.

Nunca se perguntou algo simples: e se o equilíbrio de forças fosse o oposto? Se o Fatah e o Hamas dispusessem do que Israel possui e vice-versa? Parece obvio que teríamos um massacre, um verdadeiro genocídio com dezenas, talvez centenas de milhares de mortos como na Síria. Chamar Israel de genocida parece uma projeção, no sentido psicanalítico, para uma vontade nem tão reprimida assim destes movimentos massacrarem Israel se apenas pudessem. Mas não poderão.

Apesar do círculo ao redor de Israel ser de mais de 350 milhões de árabes e de quase 2 bilhões de muçulmanos, a maioria destes sabe que Israel não quer se expandir um centímetro e não quer matar um árabe. Foi assim nos acordos com o Egito e com a Jordania. Se o objetivo do estado Palestino for existir e não fazer Israel inexistir, será assim com os palestinos. Mas a maior tragédia do povo palestino são seus líderes e seus apoiadores. Os líderes se iludem de geração em geração que podem de alguma maneira acabar com o estado judeu e se acoplam ao que há de mais antissemita em cada era. Foi assim com Hitler e o Mufti, depois com Nasser, com Sadan Hussein e Arafat, com o Irã e com o Hamas e agora nesta campanha de difamação e de libelo racista do alinhamento das extremas esquerdas com a causa palestina via BDS.

Enquanto a utopia de acabar com Israel, seja pela via política pelo uso cínico do politicamente correto pré-julgando o fraco positivamente e propagando o racista BDS que busca criar uma realidade de um estado estilo Africa do Sul; ou seja pela via violenta da jihad que eclode como resultado da incitação na mídia palestina, a tragédia se perpetuará. E a ilusão de óptica de uma Israel forte e “opressora” frente a uma Palestina fraca e “oprimida” perdurará.

O povo palestino merece um melhor destino. Tenho certeza que do lado israelense haverá uma maioria receptiva que apoiaria a autodeterminação palestina se esta fosse acompanhada de uma sincera mudança de narrativa. É urgente que se abdique da posição que deslegitima e nega o direito básico do povo judeu a seu estado independente: O Estado de Israel. No dia que os palestinos quiserem ter um estado mais do que fazer com que os judeus não o tenham, se viabilizará a possibilidade de dois estados para dois povos. Caso contrário, se manterá o status quo e a ilusão de óptica onde os palestinos parecem resistir mas tentam destruir e Israel parece destruir, mas está apenas resistindo.

 

 

 

 

 

2 Comentários a Algumas Ilusões de Óptica do Conflito Israel-Palestinos

  1. Milton Gerson's Gravatar Milton Gerson
    26 de janeiro de 2016 at 12:15 | Permalink

    Excelente artigo, principalmente para quem não vive de perto o conflito, mas pensa que é especialista nele.

  2. Paulo Vinícius Caminha de Oliveira's Gravatar Paulo Vinícius Caminha de Oliveira
    16 de novembro de 2016 at 23:16 | Permalink

    Caro Fábio, não lhe conheço pessoalmente, mas com certeza és uma pessoa que vale a pena conhecer e passar horas conversando. Sou um Judeu perdido em Florianópolis, gaúcho com muito orgulho, mas que procuro discorrer tuas idéias, infelizmente não possuo um átimo de teu conhecimento e lucidez, mas certamente nos meus próximos debates com os pseudo especialistas que o ” politicamente correto” criou, usarei, com a devida vênia, teus argumentos. Shavua tov. Shalom a todos.

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