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Leniza Kautz Menda

A vaidosa – um conto de Isaac Bashevis Singer

31.03.2016

“O homem prefere ser exaltado por aquilo que não é, a ser tido em menor conta por aquilo que é. É a vaidade em ação”. Fernando Pessoa

Esse pensamento do famoso poeta português Fernando Pessoa ilustra a personalidade da personagem principal do conto “ A Vaidosa”, escrito por Isaac Bashevis Singer.

A história foi ambientada em Lublin, na Polônia, e a protagonista se chamava Hodel, mais conhecida por Adele. Essa moça solteira tinha uma verdadeira obsessão por roupas, a ponto de não pensar em mais nada a não ser no vestuário, nas bugigangas e nas bijuterias acumuladas ao longo dos anos. Adele achava defeito em seus pretendentes, pois fulano estava com o colarinho da camisa aberto; beltrano, com o casaco desabotoado; sicrano, com as botas sem o devido polimento.

Toda a futilidade de Adele se refletia na prova de roupas novas, na combinação das mesmas e na escolha das cores dos tecidos e acessórios. “Se o vestido era verde, precisava de sapatos verdes e chapéu verde. O chapéu precisava de uma pena verde e a sombrinha tinha que ser verde”. Ela assinava revistas de moda parisienses em que se lançavam uma variedade de estilos novos; possuía cerca de cinquenta saias-balão, última moda naquela época, e vestia, infalivelmente, o espartilho todas as manhãs assim como um “judeu piedoso poria a camisa franjada” (talit).

A coquete Adele, embora não fosse piedosa, ia à sinagoga em Rosh Hashaná e Yom Kipur. Nessas festividades, ela se vestia com o máximo rigor como se fosse casar, não rezava e sua única preocupação era observar a indumentária e as joias das outras mulheres.

Além de fútil, Adele era acumuladora; jamais se desfazia de algo, muito menos de suas roupas íntimas as quais se desintegravam como teias de aranha quando alguém as tocava. Entre suas coleções de quinquilharias, havia inúmeras mortalhas feitas de preciosos linhos com enfeites de rendas caríssimas.

No momento em que Adele soube que os judeus eram enterrados com mortalhas simples, confeccionadas em linho e desprovidas de enfeites, abdicou do judaísmo e tomou a decisão de se converter ao catolicismo. Uma das justificativas de sua atitude foi a confissão de sentir vergonha pelo fato de os judeus serem enterrados com vestes simples e, em algumas ocasiões, serem enrolados em trapos. Na verdade, ela se convertera porque queria baixar à sepultura enfeitada como uma rainha, tendo se munido, de antemão, com um verdadeiro enxoval para as exéquias fúnebres. Guardava em sua residência uma urna de chumbo forrada de seda a fim de preservar a sua vaidade e dignidade por ocasião de sua morte.

Adele – Hodel – morreu pobre, solteira e sozinha. Não constituiu família nem teve filhos. O cultivo da aparência prevaleceu sobre a essência da personagem. Essa paixão doentia implicou o aniquilamento de sua personalidade.

É interessante ser vaidoso, mas é importante que a vaidade não domine nosso ego para não influir de forma negativa em nossas vidas.

 

*Texto baseado no conto A Vaidosa , do livro Um amigo de Kafka, escrito por Isaac Bashevis Singer

 

1 Comentário a A vaidosa – um conto de Isaac Bashevis Singer

  1. 17 de maio de 2018 at 22:39 | Permalink

    Gostei muito do seu texto, me lembrou um outro conto de Singer em que ele fala sobre outra mulher vaidosa que amava sua aparência e foi seduzida pelo demônio que mora no espelho das mulheres frívolas e vaidosas.

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