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Wremyr Scliar

Professor de Direito Administrativo (PUCRS), Doutor, Mestre e Especialista em direito.Conselheiro substituto emérito aposentado do Tribunal de Contas - RS. Comenda Oswaldo Vergara - OAB RS. Primeiro diretor da Escola de Gestão e Controle do Tribunal de Contas - RS.

40 anos do assassinato de Vladimir Herzog: Judaísmo e Liberdade

05.11.2015

No final de outubro, o Brasil e São Paulo lembraram  os 40 anos da data em que Vladimir Herzog foi assassinato nas instalações de tortura da ditadura que, em 1º de abril de 1964, havia dado um golpe, derrubado um governo legítimo e perseguido por 20 anos cerca de  50.000 cidadãos, com um número de mortos ainda não definido.

Vladimir (Vlado) era diretor da TV Cultura, filho de imigrantes judeus da Iugoslávia, casado com Clarice e pai de uma filha.

Após virulentos discursos dos deputados estaduais José Maria Marin e Wadyh Helou, acusando-o de comunista, foi intimado a comparecer aos órgãos policiais e militares  de represessão e mantidos por grupos empresariais paulistas e internacionais.

Desassombrado e corajoso, aceitou a intimimação, embora pudesse partir para a clandestinidade e procurar asilo em outro país.

Sozinho, confiante e consciente de nada ter feito ilegalmente, apresentou-se e foi preso imediatamente.

Pela manhã, comunicada a sua morte,  foi divulgada sua foto em posição de suicídio com o cinto preso a uma janela de pouca altura. Seus joelhos estavam dobrados e firmes no piso. Clarice Herzog processou a União e a Justiça Federal condenou ao pagamento de uma indenização por não dar proteção devida ao preso sob sua tutela. A viúva entregou o valor a instituições de direitos humanos.

Na ocasião da morte, um ato religioso ecumênico foi  realizadoem São Paulo, no interior da  Catedral da Sé,cercada pela polícia e forças armadas,  ordenado por D. Evaristo Arns, pastor Whrigt e rabino Henry Sobel.

Agora, no final de outubro, novo ato no mesmo templo, também com milhares de pessoas e 30 corais relembraram a memória de Vlado.

Muito tempo depois, conversando com Sobelsobre o episódio, e ainda sob intensa emoção, o rabino de São Paulo  narrou ao autor que, quando o corpo chegou ao cemitério judaico, o atestado de óbito do médico legista Harry Shibata declarava que a causa da morte era o suicídio e a cova estava aberta junto ao muro, segundo a tradição, como sinal de indignidade por retirar a própria vida.

Sobel determinou a preparação do corpo, mas os policiais que vigiavam o caixão lacrado recusaram-se a permitir a sua abertura. O rabino disse ao autor, na mesma ocasião, em tom de profunda emoção, que, afirmou aos policiais que  sem o ato religioso de preparação, não haveria enterro e isso seria divulgado às agências noticiosas internacionais. Seria um fato de muita repercussão porque também envolvia a liberdade de religião.

Consultados, os donos da república autorizaram a abertura da urna. Sobel disse que o corpo apresentava no pescoço e tórax sinais de dolorosa tortura com consequência letais.

Imediatamente, mandou abrir nova cova no centro honorífico do cemitério.

Esses fatos e o comportamento de Vlado unem o pensamento de um jornalista não-conformista, democrata e anti-totalitário com as suas mais autênticas raízes éticas fundadas no judaísmo: a sua consciência libertária de liberdade.

Não se esquivou de enfrentar o perigo da tortura e da morte. Pagou com a vida. Mas sua consciência não tergiversou nem suas atitudes o levaram para longe do embate.

Fez – como deveriam faze-lo, aqueles que nasceram  de uma nação cujo marco constituidor é a busca da liberdade, com a saída do Egito liderados pelo príncipe e profeta Moises.

A travessia (Pessach) que comemora esse episódio relembra a caminhada da terra da escravidão em direção à terra livre.

Nas noites em que se relembra essa travessia, a principal oração clama poeticamente pela memória: escravo foste no Egito, por esse caminho não voltarás (diz o Deuteronômio) e ninguém dos teus irmãos será teu escravo.

Vlado cruzou o seu Sinai, firmou-se nos seus ideais e dirigiu-se ao seu holocausto individual.

A mesma memória e as mesmas palavras que mantém o povo judeu, embora milhares de anos de perseguições e a tragédia universal do holocausto, cicatriz da humanidade, foram concretizadas pelo jornalista Vladimir Herzog, o judeu cujos pais fugiram um dia. Ele, o jornalista e idealista, não mais fugiria.

Vlado nos faz aflorar à memória crítica o sentido ético de sermos eternamente vítimas-testemunhas dos holocaustos de nações ou de uma pessoa. A testemunha que não cala, é vigilante e atenta às novas tentativas de atentar contra a liberdade.

Os judeus estão presentes no Brasil, como patriotas que afrontaram (e foram muitos) os regimes totalitários: combatendo o estado novo, lutando na II Guerra nos campos da conflagração e enfrentando a ditadura recente.

Talvez seja essa a parcela mais significativa do seu legado à humanidade e ao povo ao qual se amalgamaram: a luta permanente pela liberdade.

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