Blogs

Fabio Lavinsky

Um Novo Monstro: o “Neo-Negacionismo” do Holocausto

25.01.2017

Uma das maiores dificuldades do coletivo humano é entender o surgimento de novos padrões. Para o nosso conforto mental, sempre buscamos explicar os fenômenos de forma análoga ou continua aos pré-existentes. Mas na verdade não é assim que funciona. O oposto também não é verdadeiro, não existe ruptura total de um modelo ou sistema e surgimento de outro totalmente novo. A realidade é mais complexa. Os paradigmas normalmente se sobrepõem como que uma cidade da antiguidade. Que vai surgindo em camadas suprajacentes, porém podendo ser visualizada as ruinas de épocas predecessoras.

Esta lógica se aplica perfeitamente a fenomenologia do antissemitismo. O antissemitismo passou pelo ódio religioso e libelos de sangue surgindo uma nova forma de ódio baseada nos ditames dos “protocolos de sábios de Zion” que acusava os judeus de dominarem os bancos e a mídia que junto com a propagação paralela do comunismo visavam dominar o mundo. Estes discursos de ódio sempre se sobrepuseram e geraram o terreno fértil para as teorias raciais do nazismo que somados geraram a malfadada solução final. Porém hoje vivemos uma fase adicional- e para manter a coerência repito: adicional e não nova pois as outras duas coexistem e muitas vezes se interseccionam. Hoje vivemos o antissemitismo nacional. Ironicamente a forma mais original e muito bem documentada em livros sagrados (ou se quiserem por Flavio Josephus) de antissemitismo. Este formato não admite que os judeus sejam dignos de um lar nacional em sua terra ancestral. Este é o antissemitismo de Bil´am, de Nabucodonossor, de Tito e do imperador Adriano que trocou o nome de Judéia para Palestina e Jerusalém para Aelia Capitolina visando exatamente tentar matar os judeus naquilo que é mais caro: a MEMÓRIA.

Falando em memória voltemos para a questão da Shoá (Holocausto) e vejamos como os fenômenos do negacionismo atual se acoplam perfeitamente no momento atual do antissemitismo.

O negacionismo dos anos 80 até meados dos 90 onde se escreveram livros dizendo que o holocausto simplesmente não existiu e que tudo foi fabricação foi derrotado devido ao acúmulo de evidências históricas. Saudemos os museus do holocausto mundo afora e ressalto o Yad VaShem de Jerusalém e esforços de pessoas como Steven Spilberg na documentação. Todos que conseguiram prender nazistas que prestaram depoimentos, e saliento Eichman contribuíram para gerar evidencias avassaladoras contra o negacionismo tradicional. Mas não pensem que ele acabou, círculos restritos supramacistas brancos e partes do mundo islâmico com menos informação e muito ódio em relação a Israel ainda defendem piamente a inexistência do holocausto. Essa assustadora intersecção entre supremacismo branco nazista e antissionismo é muito óbvia, e textos de infames como o David Duke parecem ter saído copiar-colar de tabloides e panfletos ultra-esquerdistas.

Porém hoje temos um novo formato, assim como alcunhamos as novas formas de nazismo de “neo-nazismo”, me permito chamar de “neo-negacionismo” do holocausto que é algo mais rebuscado e dissimulado porém não menos perverso. Teço aqui as sprincipais características de sua narrativa:

a-“Já se falou demais do holocausto e que os judeus se vitimaram demais sendo que morreram muito mais russos, alemães … (Esquecendo que esses não morreram como ovelhas no matadouro…)”.

b- “O holocausto é utilizado pra ganho secundário e explorado pelo complô da mídia Hollywoodiana judaica e com o internacionalismo dos bancos pra favorecer o sionismo, o imperialismo e o colonialismo.”

c- “Os sionistas tinham pactos com os nazistas. Pegam os contatos minoritários com o governo alemão dos anos 30 para conseguir trazer os bens dos judeus fugindo como “pacto”. Não levam em conta que o Mufti palestino de Jerusalém sentou pessoalmente com Hitler e além de mandar forças expedicionárias para a Bósnia lutar ao lado da SS, articulou a solução final em Israel. A liderança palestina da época esperou Himmler para matar todos os judeus e “liberar a palestina”. Isso sem contar na pressão árabe pela pressão de proibição de imigração de judeus para Israel onde a imperialista Inglaterra sucumbiu e com os seus livros brancos causando secundariamente a morte de milhões de judeus. (em tempos de políticas anti-imigração, este é um resgate histórico importante). “

d- “Israel fez e faz na Palestina algo igual (!!!) ou pior (!!!) do que o holocausto.” Algo absurdo qualitativa e quantitativamente. Este paralelo bizarro foi arquitetado exatamente para “neo-negar” o holocausto. Há muitos problemas na questão palestino-israelense, porém não paralelo nenhum. Qualquer um pode apreciar os números e a presença de riqueza e prosperidade ate mesmo em Gaza que conta com parques aquáticos, hotéis de luxo e shoppings-center. Assim que eram os Ghetos? Claro que não. E digo mais essa narrativa de paralelização além de mentirosa e imoral fere a própria causa palestina pois tira ela do plano de discussões reais e coloca ela no plano do discurso fantasioso e de ódio.

e-Teorias de conspiração. Essa é realizada mais pela direita neo-nazista, mas também se ve muita propagação no mundo árabe. Todas as tragédias foram complôs sionistas. O ISIS foi criado por Israel. E mais um número infindável de devaneios.

Quais são os principais atores que produzem e divulgam esta narrativa? O NEO-negacionismo do holocausto é são gestado, produzido, difundido e ampliado pelas duas principais forças do antissemitismo atual: os supremacistas brancos e o eixo Iraniano. O Iran se tornou um grande Hub de “produção intelectual” dessa narrativa, inclusive com concursos e congressos. Vide a foto do Ahmadinejad recebendo o supremacista branco David Duke. Teve até ganhador brasileiro de concurso de cartoons desse teor.

Infelizmente alguns dos setores ditos progressistas e apoiadores da causa palestina voluntariamente ou involuntariamente reverberam todo ou parte deste discurso (Ressaltando que entre os palestinos há uma crescente consciência acerca da Shoá, inclusive com algumas iniciativas como a de professores de Ramallah que levaram jovens para fazer a marcha da vida). Cabe a estes setores, normalmente bem-intencionados na sua essência, entenderem que eles estão sendo cooptados por um discurso de ódio e que estão fazendo copy-paste do que membros da Klu-Klux-Klan e do regime assassino de LGBTs e mulheres dos Aiatolás escreve.

Por que se negou o holocausto e agora se cria artifícios para negar de formas indiretas? A resposta é muito simples: para apagar a memória do senso coletivo e logrando sucesso nesta fase abrir caminho para que algo semelhante ao holocausto possa ocorrer novamente de outras formas. A utopia de ódio do antissemitismo tem no holocausto um grande anteparo a suas ambições.

Lembremos e eduquemos. Este é o antidoto mais efetivo.

Deixe um Comentário

Outros Artigos de Fabio Lavinsky

Ame a Paz e Persiga a Paz!

20.07.2016

Os desfechos dos casos de antissemitismo amplamente divulgados na mídia (inclusive israelense) ocorridos na Universidade de Santa Maria e recentemente...

O FÊNOMENO DO “LIBELO CONTRA A TERRA (DE ISRAEL)”

27.06.2016

“והאנשים אשר-שלח משה לתור את-הארץ וישבו וילינו עליו את-כל העדה להוציא דבה על הארץ. במדבר יד:לו” “E os homens...

Terra Por Paz: Esta Fórmula Ainda É Possível? (TEXTO ESPECIAL DE PESSACH)

22.04.2016

O trágico conflito Israelense-palestino teve um momento de grande esperança onde muitos acreditavam que o seu término era possível e iminente:...

Algumas Ilusões de Óptica do Conflito Israel-Palestinos

25.01.2016

לֹא תַעֲשׂוּ עָוֶל בַּמִּשְׁפָּט לֹא תִשָּׂא פְנֵי דָל וְלֹא תֶהְדַּר פְּנֵי גָדוֹל בְּצֶדֶק תִּשְׁפֹּט עֲמִיתֶךָ ויקרא פרק יט, פסוק...

As Controvérsias da Nomeação do Embaixador Dani Dayan

27.12.2015

Dificilmente me recordarei de uma questão tão multifacetada e tão complexa como a nomeação do Embaixador Dani Dayan e...