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Nurit Masijah Gil

Sou paulista e moro em Porto Alegre há tempo suficiente para não lembrar da vida antes do ‘bah’. Publicitária, pós graduada em marketing, mãe de duas crianças incríveis (desculpem, foi irresistível), empresária e com desejos literários, meu objetivo nesta coluna é sensibilizar nossa sociedade com informação para desconstruir esterótipos e diminuir preconceitos. Parece utopia, mas prefiro acreditar não passa de um bom desafio.

Vivendo em Israel: Ulpan e inspiração

30.01.2018

Primeira história:

Ela tinha as portas dos armários forradas de poesia porque queria saber declamar de cor – talvez para ela mesma – os sonetos de Vinícius. Desde menina ela colecionava gostares diferentes. Preferia a conversa dos adultos, fazia amizade com as pessoas dos livros, gostava do cheiro de álbuns antigos. Sabia como ninguém observar as sutilezas que jamais esqueceria. Era apaixonada por longas histórias, por aprendizados, por ser instigada. É verdade que fingia compartilhar dos mesmos gostos adolescentes de suas amigas, mas a alma dela nunca esteve naquelas conversas. “Podem tirar tudo de você, menos o conhecimento”. Talvez fosse a frase que seu avô polonês repetia, talvez simplesmente sua memória que sempre pareceu roubada de gente velha.

Um oceano inteiro me separa dos cheiros e gostos familiares. Fazer as malas e partir nos torna íntimos do ambíguo. Há dias em que acordamos em êxtase com as novas possibilidades, com a vista da janela confirmando que você está no único lugar do mundo ao qual verdadeiramente pertence e onde todos na rua se parecem com alguém da comunidade em que você cresceu. Há outros em que apenas gostaríamos de deitar no colchão de nossa casa distante e fechar os olhos com a paz que só existe onde tudo lhe é familiar. Dos ingredientes na geladeira aos atendentes de telemarketing que falam a sua língua. Onde há cheiro de pão de queijo saindo do forno e onde escutamos “como você cresceu, te peguei no colo quando nasceu”. Um lugar onde não só entendemos os títulos dos livros nas livrarias, mas os sarcasmos, as entrelinhas, as referências. Voar é enriquecedor na mesma medida em que faz doer os braços com o peso extra e cheguei aqui sabendo que precisava preparar uma aterrissagem leve.

Estava decidida a não estudar no Ulpan*, ao menos no início. Havia uma vida inteira para começar e eu não poderia me dedicar ao ABC de uma nova língua. “Mas se não fizer agora não fará mais”. “É uma experiência única”. “Você conhecerá pessoas que estão vivendo o mesmo que você”. Mudei de ideia.

Estou chegando ao sexto mês em Israel e com ele, ao difícil processo dos últimos dias de estudo que antecedem a vida real. No meio dos livros que precisam ser abertos do lado contrário e lidos sem vogal, encontrei uma pessoa dotada de doses enormes de inspiração que me fez lembrar quão boas são as histórias, os aprendizados e o prazer que existe em ser instigada. Voltar a estudar – e com ela – foi transformador.

Entre o riso e a alegria do ambíguo tão familiar aos imigrantes, entre a coragem e a transformação, a Nurit de seis meses atrás não existe mais. A foto daquela mulher cansada no aeroporto parece ter sido tirada há muito tempo, mas para minha surpresa, este passar dos anos não me deixou mais velha. Sou a menina que nunca esqueceu os sonetos de Vinícius.

* Escola para estudo intensivo(íssimo) de hebraico.


O texto abaixo for escrito pela mulher das doses enormes de inspiração, morá no Ulpan e que compartilha comigo o prazer da escrita. Por que escolhi este para traduzir do hebraico? Porque a menina dela, que cresceu em Israel e a minha menina, que cresceu no Brasil, contam o que não é segredo: somos sim um povo.

Segunda história:

Imagem texto OritTrouxe ou não trouxe (por Orit Bar Aki-An)

O entardecer de uma sexta-feira. Silêncio na rua. Todos dormem. Ao fundo, a música de Bach.
Calor. A temperatura sobe rapidamente. Ela sai pela porta. Em pé, sozinha, observa a rua que chega até sua casa. A luz do sol forte atinge como um golpe seus olhos claros e nus.
“Papai deve chegar a qualquer momento”. Seu coração bate ansioso com a espera. Ela senta-se debaixo de um arbusto enquanto observa o asfalto estreito.
Aos seus pés, algumas formigas desviam sua atenção. Seus pequenos olhos as acompanham. Agora, seu mundo é o delas.
Observa o ir e vir de duas fileiras opostas. Elas caminham por um trajeto invisível, encontram-se, param para trocar uma palavra e apressam-se na jornada sem tempo que é sua missão de vida. “Para onde estarão indo tão rápido?” ela se pergunta em voz alta. Seguem como numa longa trilha para Canaã. Sua mão ajuda empurrando uma formiga que arrastava-se carregando duas vezes seu peso. Ela nota, então, uma terceira fileira se formando para escalar o tronco de uma laranjeira próxima, encontrando uma falha na tinta de cais branco que deveria impedir que elas subissem até os frutos.
“Ei, vocês não podem subir aí, voltem aos seus lugares”, grita ela tentando fazer com que as formigam desistam do caminho a pouco descoberto. Sem sucesso, pega a mangueira que durante o verão fica conectada à torneira do quintal e força a mudança de rumo das formigas com uma fina corrente de água.

Satisfeita com o que acabara de fazer, levanta-se e volta novamente seus olhos para a rua. De longe, já podia vê-lo se aproximar. Seu coração bateu forte ao enxergá-lo de calças claras e camisa de algodão listrada*. Ao seu lado, uma bolsa de couro pequena. “Terá trazido ou não?”.
Sem paciência, ela corre em direção ao portão e solta a voz sem conseguir conter sua alegria:
– “Você me trouxe o livro? Trouxe o livro do dia?”.
Por toda a semana havia esperado pelo livro. Aguardava com expectativa por este momento. “Você lembrou-se de comprar o livro da semana ou não lembrou? Trouxe ou não trouxe?”, ela pergunta ofegante, atirando-se em seus braços.
– “O que? Hoje já é sexta-feira? Como fui esquecer? Por que não me lembrou?”.
– “Como não lembrei? Gritei para você por toda a rua hoje de manhã enquanto saia para o trabalho”.
– “Oh, que pena. Eu não entendi o que estava gritando”.
– “Papai, diga a verdade: você trouxe ou não?”.
– “Vamos entrar e verificar. Talvez eu encontre algo em minha bolsa”, ele respondeu solenemente.
– “Então, você trouxe?”.
– “Espere, entre. Vou comer algo e então, veremos”.
Ambos entram na casa e ela insiste:
– “Verifique agora, papai”.
Ele permanece em silêncio enquanto caminha lentamente para a pequena cozinha. Tira margarina da geladeira e espalha um bocado na frigideira. Quando ela começa a borbulhar, adiciona batatas cozidas fatiadas – uma a uma – e o frango já cozido que descansava num resto de sopa. O cheiro de fritura das batatas estimula seu apetite.
Ela já conhecia a ordem dos acontecimentos. Observa enquanto ele coloca dois garfos sobre a mesa. Um copo, uma jarra de suco de laranja, borscht ou caldo de frango, pepinos em conserva. Observa enquanto ele tira a frigideira do fogo e despeja seu conteúdo sobre o prato. Enquanto abre sua bolsa fina e dela, retira o jornal para colocar à sua frente na mesa. Enquanto troca a estação de rádio para a música local transformar toda a atmosfera da casa.
– “Venha, sente-se comigo”, ele convida.
– “Eu já comi”.
– “Sim, eu sei. Venha mesmo assim, apenas sente-se a meu lado”.
Ela vai. Sem dizer uma palavra, ele empurra com o segundo garfo fatias de batata dourada e frango amarelado para a boca da filha ao mesmo tempo em que passa os olhos pelo jornal. Primeiro as manchetes. Ele come as batatas antes do frango. Uma garfada para sua boca, outra para a dela, como gêmeos siameses.
– “Agora que terminou de comer, deixe-me ver que livro trouxe”.
Ele tira a louça da mesa. “Espere um minuto”. Entra no chuveiro para banhar-se e sair com o cheiro de pai limpo e sem suor que ela tanto adora.
– “Agora sim podemos ir”.
Ele não precisa insistir.
– “Este é o momento de descobrir se algum livro encontrou sozinho o caminho para dentro da minha bolsa”.
Ele abre uma fresta e tateia com os dedos. Retira então um livro novo e grosso.
– “Este é seu”, ela conclui decepcionada. “Procure um pouco mais”.
Ele coloca os dedos novamente na bolsa e desta vez, encontra um livro pequeno embrulhado em papel colorido.
– “Ei, este é para mim! Me dá! Me dá!”.
– “Você não precisa insistir mais de uma vez em cada palavra”, ele repreende.
Entrega o livro com cerimônia. Ela queria agarrá-lo. Rasgar a embalagem e a fita com pressa. Mas decidiu alongar o momento de deleite. Desfez suavemente o laço, abriu lentamente a embalagem que desvendaria majestosamente o presente. O livro que ela tanto desejou. O livro da coleção que ela tanto gostava.
O cheiro daquelas páginas era arrebatador e ela ansiava por ele. Fechou os olhos. Inalou, extasiada. “Obrigada, papai”. Os olhos dela brilharam. Ele acariciou a cabeça da filha para então descobrir o que revelava seu sorriso largo com pequenos dentes: a ausência do primeiro deles, que acabara de cair.”

 

*Referência – Bereshit: Yossef é retratado como o filho preferido de Yaakov: “E Israel amava José mais que a todos os seus filhos, porque filho da velhice era para ele” (Bereshit 37:3). Como demonstração de afeto, Yaakov presenteia seu filho Yossef com uma túnica listrada (Ktonet passim).

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