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Rogério Friedman

Sou médico e professor universitário. Vivo num meio onde se busca aprender com a História, se busca a verdade e se trata de cuidar do ser humano. Este espaço acolhe ideias atuais, mas não aceita intolerância ou preconceito de nenhuma ordem.

Uber versus ISIS

21.11.2015

Uber contra ISIS? Claro que não de verdade. Uber é um aplicativo de agenciamento de transporte individual. Duvido que esteja disponível na Síria ou no Iraque, bases territoriais do Estado Islâmico.

Mas, lá como cá, estes acontecimentos nos falam sobre o século XXI. O duelo de forças emergentes, rápidas e fluidas, contra poderes estabelecidos, envelhecidos e pesados.

O Estado Islâmico (ISIS ou Daesh) é, essencialmente, medieval nas suas práticas. Quer o retorno do califado e a submissão de todos. Avança numa orgia de destruição e atrocidades, como fizeram bárbaros na antiguidade. Vinha sofrendo ataques de forças armadas de vários países, que causaram atrasos e vulnerabilidades, mas não mudaram significativamente o rumo das coisas. Em 2 dias de ações, os “hacktivistas” do Anonymous exterminaram contas de Twitter, 6 mil vídeos e 149 sites do ISIS, em geral usados para recrutamento de novos fanáticos. Anonymous, para o mal ou para o bem, é o novo mundo. Transita na “nuvem”, não precisa de território. É conectado, instantâneo, incontrolável e, por dominar o meio virtual, capaz de causar grandes impactos.

A Uber Technologies é uma empresa nos moldes contemporâneos. É global e se expande rapidamente. Não necessita de base territorial. Opera na “nuvem”. Não é regulamentada. É conectada, instantânea e não submetida aos controles tradicionais. Para o mal ou para o bem, é um fato novo, que está mudando a maneira como as comunidades vivenciam o transporte individual e coletivo. Impacta os sistemas antiquados, cartoriais e burocráticos, que vivem do papel, das licenças, das inspeções, taxas e concessões. Os protestos dos permissionários de táxi e a fala angustiada (e de matiz algo autoritário) do dirigente do setor de transportes, no rádio, dão bem uma medida do impacto causado pela chegada desta nova modalidade de serviço.

Lá no Oriente, o novo impacta o velho num ato de retaliação. Aqui, o novo impacta o velho com uma proposta não-enquadrável nos sistemas formais vigentes..

ISIS será destruido pela força, mesmo. Mas a anulação de suas fontes de financiamento pelo espaço cibernético, o bloqueio de meios de comunicação, o rastreamento online de líderes e a identificação de clientes do petróleo clandestino e do tráfico de armas por meios digitais poderão fazer mais estragos do que as bombas.

Por aqui? Sejam quais forem os ajustes, o modelo de negócio da Uber vai afetar o modo como se pensa transportes em nossas cidades. Vai, sim, vai ter impacto na qualidade dos serviços prestados pelo sistema de táxis e, quem sabe, pelo transporte coletivo como um todo.

Não é o futuro que chega. É o presente que marcha rápido, a muitos terabits por segundo, confronta e expõe a obsolescência de velhas estruturas. A tentativa de parar o avanço, motivada ou não por boas intenções, é fútil, porque o avanço do mundo conectado é inexorável. E quem não se ajustar a ele ficará prisioneiro de suas escolhas.

oldandnew2

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