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Gustavo Schwetz

Jornalista que não exerce a profissão. Escritor sem livros publicados. Empresário sem MBA. Colunista com a pretensão de derrubar rótulos, questionar verdades absolutas e lutar por uma comunidade / sociedade / mundo mais plural e justo.

Teoria do Espelho

15.11.2015

Vi o mesmo brilho nos olhos. A mesma incompreensão àqueles que pensam em eliminação. Os mesmos sonhos de coexistência.

Ninguém me contou. Eu conheci. Conversei. Desabafei. Recebi, em troca, olhares pasmos. Você? Judeu? Tem críticas ao governo de Israel? Eles conheceram. Conversaram. Desabafaram. Você? Muçulmano? Tem os judeus como povo de confiança?

Os minutos iniciais, estranhos, deram lugar a uma naturalidade pouco crível. Nós estávamos lá, no meio dos Estados Unidos, criticando os extremistas dos nossos povos. Sem compreender, juntos, como pode haver pessoas nesse mundo que não conseguem entender que, dentro de dois povos, há diferentes opiniões e maneiras de enxergar o mundo.

Será que devemos chamar uma conversa entre dois seres humanos de coexistência? Será que coexistência, de certa maneira, não é uma palavra criada por aqueles que não tiveram convívio real com pessoas de outras religiões? Não quero retirar a nobreza da palavra ou a profundeza do seu significado, mas tudo se torna tão simples a partir do momento em que deixamos de enxergar o outro como membro da torcida rival.

O mundo não é perfeito. As pessoas não são perfeitas. As diferenças culturais, depois de um tempo, começam a aparecer. Tudo, nessa vida, é cultural. Dificilmente alguém que nasce em um país no qual o casamento com mais de uma mulher é comum, não fará o mesmo se tiver a oportunidade. Há diferenças significativas que, muito provavelmente, se transformarão em empecilhos para amizades duradouras. Entretanto, a ideia de que há anjos e demônios no mundo em que vivemos ultrapassa a barreira da coerência.

O que é bom ou ruim? O que é certo ou errado? Quem é capaz de julgar? Ousam dizer que uma cultura inteira está completamente equivocada. Ousam dizer que uma cultura inteira está completamente correta. O absolutismo das palavras faz parecer que quem as cita é conhecedor profundo da cultura oposta. Duvido. Ou, se entende algo, absorveu apenas dos livros. A partir do momento em que conhecemos um ser humano de verdade, olhando nos olhos, ouvindo e se sentindo ouvido, abrindo o coração sem medo de repulsas, deixamos de nos ater a detalhes completamente superficiais, como cor, origem, religião, orientação sexual.

Por que Teoria dos Espelhos? Simples. Antes de julgar qualquer tipo de grupo diferente daqueles que você frequenta, faça o exercício de olhar ao seu redor. Haverá os extremistas de um lado, os centrais e os extremistas do outro lado. Cada um, em seu nível, defenderá narrativas muito parecidas ou completamente diferentes das suas.  Nenhum é visto como demônio. As discordâncias não geram ódio. O outro lado funciona da mesma maneira. A maior prova de todas?

Já conhecia Ahmed há dois meses. Um dia, na praia, falou que precisava revelar uma coisa. Um pouco encabulado, disse que, quando falou para a sua mãe que estava morando com um judeu, ela respondeu assustada: “Por favor, meu filho. Tome cuidado! Pelo que você me fala ele parece ser bem legal, mas tome cuidado”. Comecei a rir desenfreadamente. Minha mãe havia falado exatamente a mesma coisa.

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