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Celso Lafer : Shimon Peres, um estadista diplomata

17.10.2016

Texto do Ex-Chanceler Celso Lafer, sobre a perda de Shimon Peres, publicado ontem no Estadão

O falecimento de Shimon Peres, aos 93 anos, assinala o término da presença no cenário político da geração de figuras públicas que tiveram papel de grande relevo na criação e consolidação do Estado de Israel. Na sua trajetória, iniciada muito jovem, com o apoio e o patrocínio de Ben-Gurion – o vigoroso patriarca inaugural de Israel –, destacou-se em muitas esferas. Foi importante líder do Partido Trabalhista; exerceu o mandato parlamentar por 48 anos; teve cargos ministeriais de grande importância, como as pastas de Finanças, Defesa e Relações Exteriores; foi duas vezes primeiro-ministro e encerrou sua vida pública, em 2014, como o nono presidente de Israel.

Num breve apanhado de facetas de sua atuação no âmbito interno do Estado que ajudou a consolidar, recordo sua coragem e imaginação na montagem do sistema de segurança e defesa de Israel, inclusive no campo nuclear. Lembro igualmente como liderou com sucesso um plano de recuperação econômica que enfrentou o risco da inflação que ameaçava a economia israelense e destaco como patrocinou, convictamente, com visão de futuro, a pesquisa e a inovação tecnológica, que são hoje um dos extraordinários ativos da presença econômica e universitária de Israel no mundo.

A firmeza da determinação e o sentido de missão foram características da personalidade política de Peres. Explicam a constância com que impulsionou suas múltiplas realizações. Permitem entender como encontrou ânimo para lidar com derrotas e dificuldades.

Seu maior insucesso foi nunca ter obtido no correr da sua longa e intensa vida política ativa o pleno reconhecimento, no âmbito interno de Israel, de sua visão e sua mensagem de estadista. Esse reconhecimento só lhe foi sendo dado nos últimos anos, a partir do exercício da Presidência. O cargo não lhe deu o poder de conduzir de um premiê. Representou, no entanto, na chefia do Estado de um regime parlamentarista, uma instância institucional própria. Dela se valeu para ser uma voz em prol da paz, uma voz dotada de autoridade, ou seja, “menos do que um comando, mas mais do que um conselho”, na formulação de Mommsen, evocada por Hannah Arendt.

Em Israel, o pleno e efetivo reconhecimento de Peres como estadista foi post-mortem. Em contraste, no mundo isso ocorreu em sua vida. Daí uma discrepância, que perdurou tantos anos, entre a avaliação internacional de sua estatura de estadista e o sentimento da população israelense. O vigor do reconhecimento internacional verificou-se no número e na importância das representações de alto nível que se fizeram presentes em seu funeral – entre elas, o chanceler José Serra. Elas traduzem, como escreveu o historiador israelense Tom Segov no New York Times, o fato de que Peres era, possivelmente, o último israelense que o mundo continuava a poder admirar como antes admirara seu país. Esse reconhecimento se deve à substância de sua visão e de sua mensagem, conjugada com seus inegáveis dotes de diplomata, que impactou quem teve a oportunidade de com ele dialogar e interagir.

O chanceler Luiz Felipe Lampreia, que chefiou em 1995 a missão brasileira a Israel, que integrei como embaixador do Brasil em Genebra, registra no seu livro Diplomacia Brasileira – palavras, contextos e razões, sobre Peres, na época ministro das Relações Exteriores: “Foi um dos interlocutores que mais me impressionaram em toda a minha carreira”. Essa avaliação coincide com a de muitos brasileiros que com ele tiveram contato, como eu próprio. Interagi com ele várias vezes como chanceler – a primeira em 1992, em reunião à margem da Assembleia-Geral da ONU – e em outras ocasiões, quando não exercíamos funções públicas.

Seus dotes para a diplomacia estavam a serviço de uma substantiva visão de política externa norteada pela busca da paz. Dizia no seu livro Que le Soleil se Lève, de 1999, que negociar não é mercadejar, é inventar e criar em conjunto; e dialogar é explicar, mas também escutar. Advertia que negociar é dialogar com o inimigo e o adversário, mas também discutir com os seus. Daí seu talento para explorar, com a sedução da inteligência e o engenho dos aforismos, os caminhos do diálogo diplomático como meio de lidar com as tensões, civilizar e mitigar as diferenças, reconciliando-as na medida do possível, sem ignorá-las numa postura solipsista.

Sua visão de política externa provinha da madura e não provinciana compreensão de que o futuro de Israel não poderia basear-se apenas no poderio militar e estratégico e no alcance da alta tecnologia inovadora da sua economia, aos quais, aliás, deu significativa contribuição. Requeria assegurar no mundo, de maneira abrangente, a legitimidade internacional de Israel.

Peres teve a clara percepção da relevância diplomática da representação simbólica, ou seja, de comunicar o que um país, com sua identidade própria, significa para os demais integrantes da comunidade internacional. No trato da representação simbólica de Israel, articulou admiravelmente no campo dos valores como o particularismo da experiência judaica é indissociável de sua dimensão universal. Por isso, para ele, o exercício do poder passava pela obrigação moral de transmitir essa universalidade. Daí, na sua visão, a responsabilidade de um alinhamento com o potencial das tendências positivas, ainda que esquivas, especialmente nesta era de grandes fraturas, do papel da razão nos processos histórico-diplomáticos.

Um verdadeiro estadista, dizia Peres no seu livro acima mencionado, não se deve fixar no imobilismo e nos adquiridos do passado. Deve ser o portador de uma mensagem e de uma promessa de futuro, criando o clima e as condições favoráveis à inovação. Por isso, como escreveu o grande escritor israelense David Grossman, em El País, Peres no seu percurso acreditava que orientar-se para o futuro gerava uma energia que permitia superar os obstáculos do passado e do presente. Daí a sua postura e lição de estadista diplomata.

* PROFESSOR EMÉRITO DO INSTITUTO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA USP, FOI MINISTRO DAS RELAÇÕES EXTERIORES (1992, 2001-2002)

Fonte: Estadão

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