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Fabio Lavinsky

Resolução 181 da ONU: 68 anos depois. Encruzilhadas e Desafios.

30.11.2015

Em 29 de Novembro de 1947, o gaúcho Oswaldo Aranha presidia a assembleia geral da ONU que decidiria a favor da partilha do território do mandato britânico denominado Palestina que preconizava a criação de um estado árabe e outro judeu na resolução 181. As palavras de Oswaldo Aranha no fim da votação: “A resolução do comitê ad hoc para a Palestina foi adoptada por 33 votos a favor, 13 contra e 10 abstenções”. Esta frase representa o renascimento do estado-nação hebreu quase dois mil anos após a sua destruição. Após séculos de perseguições e de submissão, finalmente o sonho da autodeterminação judaica na sua terra ancestral, cujo vinculo não fora esquecido sequer em um único turno de um único dia, se tornaria realidade. E acima de tudo, uma realidade política e respaldada pela lei internacional. Décadas após a frase profética de Hertzl: “Se quiserem, não será uma lenda”, a revolução sionista se tornava um fato. O estado judeu autodeterminado, democrático e com plenos direitos para todos os cidadãos nascia e o nosso Oswaldo Aranha é o “parteiro” deste parto complicado.

Não podemos nos esquecer que este foi um parto de gêmeos. O nascimento do Estado de Israel foi concomitante com o teórico nascimento de um estado árabe contiguo e com fronteiras perenes entre os dois entes. Naquele momento, o movimento nacional palestino era incipiente e focava principalmente em ser parte da nação árabe e tinha como papel principal a violenta “resistência ao sionismo”. A denominação “Palestina” era utilizada como todo o território britânico e era muitas vezes considerada semântica sionista por alguns árabes. Vide, por exemplo, que na enciclopédia Larrouse dos anos 1930 a bandeira referente a “Palestina” era a do movimento sionista.

No entanto, ao invés de uma dicotomia entre dois entes nacionais querendo dividir um território, subjacente ao conflito há um ente que quer existir em parte do território: Israel; e outro ente que considera ilegítima a existência do “irmão gêmeo” e se autodenominação imputa a cooptação para si de todo o território. E dentro desta cooptação há a adoção de uma narrativa histórica com facetas um tanto incongruentes. O Charter da OLP diz que os palestinos são parte da nação árabe, ou seja, resultado dos fluxos migratórios e das conquistas do século VII em diante. Porém, concomitantemente se prega a condição de “autóctone” aos palestinos. Alguns dizem que são descendentes de filisteus. Outros de Jebuseus. Já li até que os povos que estavam na terra de Canaã na vinda de Abraão seriam palestinos. Este grande emaranhado histórico tem lacunas de sustentação historiográfica especialmente na documentação da continuidade e dos elos entre estes entes supracitados. Aliás, estes entes da antiguidade não utilizavam o termo greco-romano palestino. Esta narrativa parece transparecer que existem dois tipos de povos que já passaram entre o Jordao e o Mediterrâneo: judeus x tudo não judeu que já existiu por lá. Acredito que se engajar nessa guerra de narrativas históricas é contraproducente e com pouca relevância pratica. O povo palestino em 2015 existe como tal e goza de direitos frente a lei internacional assim como todos os outros povos.

A negação da existência de Israel é a raiz de todo o conflito. A não aceitação da resolução 181 é o “Big-Bang” da Nakba (tragédia) palestina. Esta tragédia foi real. Houve a dispersão de centenas de milhares de pessoas. Porém, os dois lados não podem esquecer o principal nexo causal da Nakba: a não aceitação da resolução 181 que comemora 68 anos hoje.

Infelizmente, logo após a resolução 181, o povo palestino foi usado como baioneta pelos países árabes para tentar erradicar o “irmão gêmeo” judeu recém-nascido. Ao contrário do que os politicamente corretos da nossa década tentam convencer, naquele momento o balanço de forças era desfavorável para Israel. Sete exércitos regulares juntamente com os palestinos atacaram Israel por todas as frentes. Palestinos evacuram vilarejos e cidades, porem judeus também o fizeram: Kfar Darom, Gush Etzion e o mais doloroso de todos: a cidade velha de Jerusalém que foi conquistada pela Legião Jordaniana e teve toda a população judaica expulsa. Aliás, se fala muito do apoio “imperialista a Israel”, mas na guerra de independência quem teve apoio direto e comando de oficiais ingleses foram os Jordanianos. Frentes muito complicadas e duras: Latrun, Bab-el-Wad e Jerusalém eram comandadas com o apoio britânico. Israel utilizava armamento muito limitado principalmente do bloco soviético e dependia muito da bravura e da veia estratégia de seus jovens comandantes provenientes do Palmach, da Haganá e de veteranos da segunda guerra nos diversos exércitos aliados e nos partizans. A imagem triste dos civis palestinos abandonando suas casas deve ser contrastada com os bloqueios as cidades judaicas da área de Jerusalém pelos Fedahyim palestinos que sitiavam e não deixavam entrar alimentos e nem remédios. Estes Fedahym atacavam civis em kibutzim e realizavam atentados terroristas nas cidades de Israel. Em 1936 e 1937 milhares de judeus morreram no “levante” violento destes fedahyim que preconizavam a expulsão dos judeus. A pressão árabe foi tanta que os ingleses emitiram os malfadados livros brancos, que proibiam a imigração judaica para Israel durante o holocausto e são responsáveis diretos por milhões de mortes pela besta nazista.

A narrativa obtusa que 1948 foi uma limpeza étnica promovida pelo imperialismo, é uma das maiores falácias históricas de nosso tempo. Foi uma guerra total, nas fronteiras contra exércitos regulares e nas cidades e nas estradas com cores de uma sangrenta guerra civil. Nesta guerra Israel perdeu mais de 1% da população para ter o direito de existir. Nunca esquecendo, porém, que a maior limpeza étnica do oriente médio foi a dos judeus dos países árabes, a população hoje que é aproximadamente 7 mil, já foi maior do que 800 mil.

A maior concessão no conflito Israel-Palestina não é a territorial e sim a da narrativa. A mudança de ethos que aceite Israel como membro legitimo das nações do Oriente Médio e não como uma cicatriz no rosto do mundo árabe. Esta cicatriz ofende o supremacismo racista que preconiza a submissão dos judeus como ocorrera por séculos com os “Dhimis” no mundo árabe. Os acordos com Egito e Jordânia são um grande passo para o fim desta narrativa. Eles refutam piamente duas grandes mentiras: Israel é expansionista e Israel é genocida. Israel não aumentou um centímetro quadrado o seu território após os acordos e não houve mortes. Com os palestinos seria o mesmo. Após acordos, se estes fossem respeitados, não haveria um centímetro quadrado de expansão e não haveria sequer uma morte.

Como contextualizar 68 anos de conflito e de narrativas discrepantes e aparentemente inconciliáveis olhando para frente e pensando no futuro? A resposta está no dia 29 de Novembro de 1947: a criação de dois estados autodeterminados, democráticos e pacíficos. Estados que colaborem um com o outro e não tentem aniquilar um ao outro.

Porém o relógio da geopolítica não pode ser retrocedido para o passado de forma ipsis literis, todos os povos arcam com os ônus dos erros crassos de seus líderes. Chamar de “solução justa” o apagamento das vitorias militares de Israel em momentos em que ela era hipossuficiente é um descalabro injusto. Tentar desenhar soluções como se Israel não tivesse sido atacada e deslegitimada durante quase 100 anos, e até hoje ameaçada por grupos que pregam claramente em seus charters a sua destruição, além de ser imoral, provavelmente geraria mais conflito e sofrimento para ambos os povos. Israel abre um precedente único na história da humanidade: aceita conceder territórios para um movimento nacional antagônico mesmo após ter vencido militarmente. Desafio os leitores a citarem um precedente semelhante na história do oriente médio ou até mesmo na história da humanidade.

O grande nó cego do conflito é a utopia do palestinismo. Esta utopia infelizmente é o fim do sionismo, seja por via violenta eufemisticamente chamada de “resistência”, seja pela politica implementando uma “intifada diplomática” que resulte na criação de um estado binacional que erradique Israel. Portanto, paradoxalmente, a criação de um estado palestino contiguo significaria a perenização de Israel. Ou seja, na medida que se chega na solução de dois estados, esta utopia se evapora. Desatar este nó cego e mudar a utopia palestina para algo construtivo e pragmático é um desafio que somente um grande líder palestino pode realizar.

No momento que a liderança palestina quiser existir nacionalmente acima de fazer Israel inexistir, haverá substrato para acordos históricos. Esta foi a grande decisão de Ben Gurion em 1947 que culminou na Independência do Estado de Israel. Existir acima de qualquer outra questão secundaria. O desafio do sionismo hoje é dar continuidade ao legado de Ben Gurion, de Rabin e de outros e finalizar o principal mantenedor da revolução sionista: a eternização de fronteiras internacionalmente aceitas que garantam a existência do Estado de Israel como o lar nacional judaico. Neste estado obrigatoriamente deve reger a democracia e prevalecer os direitos plenos e iguais dos cidadãos de todas as etnias como escrito e assinado por todos os presentes, inclusive pelos representantes árabes, na sua declaração de independência.

Celebremos o 29 de Novembro de 1947. Le Chaim!

 

 

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