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Wremyr Scliar

Professor de Direito Administrativo (PUCRS), Doutor, Mestre e Especialista em direito.Conselheiro substituto emérito aposentado do Tribunal de Contas - RS. Comenda Oswaldo Vergara - OAB RS. Primeiro diretor da Escola de Gestão e Controle do Tribunal de Contas - RS.

Quando ela era boa, de Philip Roth

21.09.2018

QUANDO ELA ERA BOA, romance do judeu-americano Philip Roth, de 1967, agora traduzido e editado no Brasil pela Cia. das Letras mostra o escritor em sua melhor forma ao narrar uma saga envolvendo três famílias que moram no interior dos Estados Unidos, pequenas cidades, com seus todos os seus hábitos regidos pela mediocridade, religiosidade radical, moralismos e, como não, envolvidos alguns em prósperos negócios.

Roth, como em outros livros, traça um cenário panorâmico de um longo período da história americana. Aquele que se inicia quando o país mergulha na depressão causada  pela quebra da bolsa de 1929, com falências generalizadas, desemprego e fome que irá até os anos 50, quando os Estados Unidos vivem a histeria do auge da guerra fria com a caça às bruxas estimulada pela comissão de atividades antiamericanas.

Nesse meio tempo, atacado pelo Japão, os Estados Unidos rompem sua tradicional postura isolacionista e se perfilam entre os aliados, vencendo a guerra sem que nenhum combate ou destruição tenha ocorrido em seu território. Emergem em 1945 como nação imperialista, dominante e em pleno crescimento econômico.

Seus personagens são todos membros de famílias interioranas e pela única vez Roth adota a figura feminina como personagem central do romance.

Ela representa valores talvez inspirados nos pais da pátria, mas que não se cristalizam, como a honra e a verdade, atitudes firmes face aos problemas que envolvem as pequenas comunidades e as famílias que fazem o círculo no qual Roth mergulha.

Sua figura feminina é Lucy, de família classe média baixa, cujo pai é agente local dos correios. Assediada por um pretendente  de família rica que havia estado na guerra no extremo oriente, sem participar de nenhum combate, exceto os jogos de ping-pong, é engravidada sob a promessa de confiar nele no carro que é a paixão do seu par, um Hudson ao qual ele dedica seus melhores  cuidados e atenção.

O pai de Lucy é alcoólatra, que causa várias situações de vexame à família à frente da comunidade e numa delas, a própria Lucy, então adolescente, chama a polícia e seu pai é preso.

Ela considera para sempre que essa atitude de chamar a polícia e ver seu pai preso foi exatamente a realização dos valores  que ela defende e que não encontra no noivo (com quem casa), nem em seus familiares ou na comunidade.

A trama se desenvolve ao melhor estilo romanesco norte-americano. Sempre o envolvimento psicológico, um pano de fundo histórico e realista conduzidos por diálogos bem elaborados que substituem as descrições de ambientes dos livros do período clássico da  literatura imediatamente anterior.

Embora o quadro familiar e comunitário tenha tons de normalidade, Roth, através de Lucy vai desvendando a anormalidade, especialmente de um tio do marido de Lucy, pseudomoralista e repugnante, aceito pela filha e esposa, sem nenhuma queixa, um empresário bem sucedido que se vale de  assédios sexuais e tem vida dupla nas suas atividades econômicas.

Ressalta-se Roth a degradação moral, ou o império de valores imorais, como a adoração consumista revelada no automóvel de Roy, o marido de Lucy. Os compromissos pessoais e as relações familiares e sociais são relativizadas e substituídas pelo comportamento que esconde a verdade, subtrai a moralidade, enquanto alguns tem seus melhores sonhos destruídos pela sociedade emergente, outros dela se valem, sem escrúpulos em meio à falsidades e mentiras para atingir seus objetivos.

O final do enredo é aquele que se projeta desde o início.

Philip Roth, que homenageamos nessas páginas, por ocasião de sua recente morte, demonstra a sua maturidade em um tema afinal alheio:

seus personagens não são os imigrantes judeus que encontraram uma nova pátria. Lucy, ao contrário,  é derrotada exatamente pela novo país e sua sociedade que se engendram após a quebra da bolsa e a vitória dos aliados.

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