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Rogério Friedman

Sou médico e professor universitário. Vivo num meio onde se busca aprender com a História, se busca a verdade e se trata de cuidar do ser humano. Este espaço acolhe ideias atuais, mas não aceita intolerância ou preconceito de nenhuma ordem.

Ódio

09.02.2016

odio virtual

 

Há tanta coisa acontecendo, um verdadeiro excesso de temas para abordar. Porto Alegre foi devastada por uma tempestade. Prefeito é criticado e defendido por grupos diferentes. A crise do Estado se aprofunda e Governador sente a frustração dos contribuintes. Insegurança e crime nos fazem reféns. Jovens árabes são incitados a cometer atos terroristas contra israelenses. Duelos verbais em torno de figuras políticas povoam as redes sociais. Na Síria, bem, nem preciso dizer. Brasil afunda rápido e o governo está atônito. “Coxinhas” e “petralhas” batem boca. Antissemitismo ressurge com força, induzido pelo uso das redes sociais e internet por extremistas e ativistas de várias correntes. Imigrantes são hostilizados. Outros cometem atos de violência. Jihadistas assassinam crianças. Iranianos enforcam gays. Lula é intimado. Seguidores tentam salvar a cara do ex-Presidente…

Com tanto assunto, resolvi procurar um fio condutor, uma ligação. Há um elemento comum, sim. Há o ódio.

Sigmund Freud definiu “ódio” como um estado do ego que deseja destruir a fonte de sua infelicidade. O Dicionário Penguin de Psicologia definiu ódio como sendo “uma emoção profunda, duradoura e intensa, expressando animosidade, raiva e hostilidade para com uma pessoa, grupo ou objeto”.

O fato é que o ódio, hoje, é mais notável do que nunca. Permeia a mídia. Está em toda a internet. As redes sociais se tornaram espaços virtuais de sentimentos negativos e de pregação do ódio.

Fenômenos sociais novos decorrem da incitação ao ódio. Os atentados terroristas diários contra civis israelenses não são um fenômeno espontâneo. São resultado do uso inteligente, maquiavélico, das redes sociais, para incitar jovens. A incitação já levou jovens muçulmanos a cometerem atrocidades na África, Europa e Estados Unidos. No Brasil, as redes fervilham de provocações e incitação ao ódio. Grupos políticos, correntes ideológicas e organizações incitam seus simpatizantes a odiarem os diferentes, os opostos, os rivais ou os concorrentes. Lideranças produzem discursos que elevam a temperatura do tecido social. O histórico conflito de classes agora se acresce do elemento ódio. Lideres discorrem impunemente sobre seu ódio a determinadas classes sociais. Oportunistas de plantão usam o conflito do Oriente Médio para insuflar o antissemitismo (portanto, ódio) latente em nossa sociedade.

Qualquer que seja o meio, a linguagem que incita segue fórmulas. Num momento de tanto ódio, achei oportuno analisar elementos de texto que são utilizados para incitar.  Preste atenção em suas leituras futuras. Ouça com atenção as falas que andam pelas mídias e pela internet. Busque sinais de incitação. Critique. Se puder, contraponha. Se necessário, denuncie.

Incitadores fogem dos fatos. Fatos são indesejáveis quando se trata de provocar emoções. Têm pouco poder de inflamar. Portanto, os incitadores evitam fatos. Mas não totalmente. Ao se modificar sutilmente um fato, ele pode ser transformado numa “verdade parcial”. Uma “verdade parcial” pode incitar mais ódio do que uma falsidade completa. Veja o caso das manchetes de alguns veículos quando dos recentes atentados em Israel: “Palestinos são mortos por policiais israelenses”. A manchete omite o fato de que eram terroristas armados de metralhadoras, tentando matar civis, que atiraram contra policiais e terminaram abatidos. Não aceite manchetes nesta linha. Leia o texto inteiro. Busque outras fontes. Tente apreender os fatos.

Incitadores generalizam afirmativas de indivíduos para grupos. Uma forma de ficcionalizar informação é tomar uma informação que é verdadeira para alguém e dizer, ou implicar, que ela é verdadeira para todos os membros de um grupo ao qual o indivíduo pertence. O efeito é maximizado quando a informação se aplica a pelo menos um indivíduo no grupo-alvo. Isto permite dizer que a afirmação é “geralmente verdadeira” e tem “algumas exceções que provam a regra”.  Esta é uma estratégia de estereotipagem, que emprega uma forma falaciosa de argumentaçao conhecida como “analogia falsa”. Tem sido muito utilizada no Brasil, no debate entre facções políticas. É muitíssimo empregada por antissemitas no mundo todo.

Incitadores transformam seus sentimentos em materialidade. Nenhuma pessoa questiona e nem se sente ameaçada quando o interlocutor descreve seus próprios sentimentos. No entanto, ao tomar uma afirmação subjetiva e fazê-la soar como objetiva, você muda a relação e confronta seu interlocutor com a possibilidade de um fato, algo que está fora de sua mente. Você pode dizer: “sinto repulsa ao ouvir dizer que políticos do partido X roubam”. Isto revela um sentimento que se limita a quem fala. Mas: “os políticos do partido X roubam e devemos rechaçá-los” indica que há um fato material (provado ou não) e se torna uma ordem e uma ameaça. Fragmentos de texto que transformam sentimentos, opiniões ou opções de um indivíduo em “fatos” objetivos ou comandos são comuns em mensagens incitadoras de ódio.

Incitadores usam palavras com conotações negativas. Palavras não são neutras. Palavras têm conotações positivas ou negativas. Se, ao invés de afirmar “os humanos mudam o ambiente”, se troca “mudam” por  “danificam”, palavra totalmente negativa, o sentido muda drasticamente. Dizer “fulano se incomoda com a forma como os cidadãos do país tal mudam o ambiente” é factual; mas dizer “os cidadãos do país tal danificam o meio ambiente” agrega a conotação negativa à falta de um fato material e incita sentimentos negativos contra aquele grupo humano.

Incitadores usam o maniqueísmo. Classificam todos os indivíduos em “bons” ou “maus” – somente “bons” ou “maus” –  e generalizam para todo um grupo. Isto dialoga fortemente com a característica intrinsecamente tribal do ser humano. Ou as pessoas estão do seu lado ou são “corruptas, egoístas, diabólicas, sociopatas”. Não permitir a nuance, a constatação da diversidade, o fato de que “bem” e “mal” convivem dentro de todos, fortalece a mensagem de estranhamento e ódio.

A Internet e as redes sociais dependem de linguagem. Todas as plataformas estão à disposição para o discurso. O incitamento online é uma forma poderosa de geração de ódio e uma ferramenta cada vez mais usada por grupos com projetos de poder. Analise com cuidado tudo o que lê ou ouve. Não se deixe envolver pela incitação. Incitação ao ódio sempre interessará a grupos mal intencionados. Quem preza a verdade, a troca de ideias, a convivência e a diversidade não pode aceitar o jogo patológico de pessoas ou organizações com agendas discriminatórias.

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