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Fabio Lavinsky

O FÊNOMENO DO “LIBELO CONTRA A TERRA (DE ISRAEL)”

27.06.2016

“והאנשים אשר-שלח משה לתור את-הארץ וישבו וילינו עליו את-כל העדה להוציא דבה על הארץ. במדבר יד:לו”

“E os homens que enviou Moshé para espionar a Terra, retornaram e fizeram a congregação murmurar trazendo um libelo contra a Terra (de Israel) Números 14:36”

 

Na próxima passagem semanal da Torah estudaremos a Parashá Shelach, nela Moisés envia espiões para a Terra de Israel e ao retornarem de lá apenas dois:  Kaleb e Josué, se mantém fieis acreditando na viabilidade da realização da promessa, enquanto os outros tentaram dissuadir o povo de entrar na Terra de Israel. Os motivos são inúmeros, mas o que mais predomina é um medo de aniquilação e o comodismo. Havia medo do povo ser dizimado por gigantes que habitavam a terra e tornavam a conquista dela teoricamente impossível.

Qual foi a tática que estes espiões incrédulos tentaram utilizar? “Dibat Haaretz”- libelo contra a Terra de Israel. A passagem prossegue e mostra como os incrédulos foram punidos e como Josué e Kaleb foram recompensados com o mérito da entrada na Terra.

Três milênios se passaram e hoje a reminiscência do povo judeu novamente se autodetermina em sua terra ancestral. E assim como em vários fenômenos históricos e sociais, o libelo contra a Terra se adapta ao contexto sionista e se repete em nossos dias. Setores do mundo judaico da diáspora e mesmo de Israel, especialmente alguns setores dos ditos liberais, começam a se alienar de Israel e de seus desafios existenciais e a focarem em sua escala própria de valores e nos seus desafios de aceitação. Exemplo: um candidato judeu nas primárias do partido democrata dos Estados Unidos, o Bernie Sanders, falou que morreram 10 mil palestinos em Gaza (numero mais de 5X maior que o real e sem levar em conta que a maioria dos mortos e o nexo causal para esta tragédia foram os foguetes do Hamas e o modos operandi de escudos humanos, o fato é que desde a trégua não há mortos!). Bernie Sanders, não é um simples judeu esquerdista, era um candidato a liderar a maior potência global que incorreu em atos falhos grotescos e difamatórios contra Israel. Constatamos, principalmente nos EUA, movimentos como o JVP (jewish voice for Peace) e pessoas como o Nahum Chomsky que fazem abertamente o libelo anti-Israel. Está se criando um abismo de valores onde o “reino” corre o risco de cindir mais uma vez na história judaica. A desproporção da empatia em relação aos palestinos comparada a empatia em relação aos israelenses que vivem cercados de inimigos e sofrem há mais de 100 anos atentados e ataques incessantemente, constituem em sintomas de uma “Sindrome de Estocolmo coletiva” por parte dos judeus (da diáspora e em Israel também).

Então não se pode criticar Israel? Claro que se pode, muitas vezes até se deve. Porém quem crítica porque ama o faz de forma estratégica e não intempestiva. As mesmas pedras argumentativas que servem para construir podem ser usadas para uma intifada de propaganda venenosa. Exatamente as mesmas frases usadas como crítica construtiva por quem ama podem ser usurpadas por quem odeia. Exemplo disso foi as declarações do General Golan que preocupado com algumas manifestações xenófobas de setores minoritários da sociedade resolveu falar isso no Yom Hashoá. Ele fez isso pelo bem de Israel, porém suas frases foram usadas de forma vil pelos inimigos.

Nada é mais didático e simples em estratégia que a matriz SWOT (forças, fraquezas, oportunidades e ameaças). Acredito que ao entender de forma simplificada a matriz SWOT de Israel, pode se constatar que há vasos comunicantes entre as ameaças ao país e as fraquezas de seu ambiente interno. Todo ponto fraco de Israel é usado como arma de propaganda em uma era onde o antissemitismo e toda a sua bagagem milenar consegue se mimetizar de antissionismo. Portanto, ao contrário do que ocorre em outras nações, muitas vezes as críticas mesmo que justificadas, aos governantes, a fenômenos negativos sociais e educacionais e principalmente o uso das redes sociais com a exposição da exceção entre as exceções de situações no contexto da segurança de Israel, se tornam armas poderosas nas mãos odiosas de quem simplesmente quer que Israel cesse de existir.

A realidade hoje é que Israel é o hipersuficiente e há uma indefinição da perenidade de suas fronteiras com uma vasta população palestina em situação civil também indefinida. Neste contexto, é muito simples para os propagandistas anti-Israel incutirem uma visão míope que abstrai que 350 milhões em volta de Israel são potencialmente hostis; amnésica que esquece toda a história onde Israel já fora hipossuficiente e à ferro e fogo mudou a situação; e mentirosa onde pinta Israel como ente imperialista, quando na verdade o imperialismo sempre prejudicou Israel e até mesmo lutou contra Israel como em 1948 onde oficiais britânicos comandavam a legião Jordaniana-Palestina e durante a Segunda Guerra o líder palestino coordenara com Hitler a solução final dos judeus de Israel quando Rommel chegasse a Jerusalém. Esta visão deturpada se encaixa como uma luva nas dialéticas simplórias oprimido-opressor que regem o pensamento de muitas pessoas, inclusive muita gente bem-intencionada.

Indivíduos ou grupos do mundo judaico na diáspora que se proclamam sionistas,  porém focam a maior parte de seu posicionamento nas “fraquezas” do Estado de Israel, deveriam aproveitar a passagem semanal Shelach dos espiões de Moshé para fazer uma reflexão. Hoje os gigantes que ameaçam o povo são o “politicamente correto” e a necessidade de não parecer estar na variável “opressor” deste binômio ímpio da dialética de quem enxerga o mundo com os óculos do ódio e do conflito. Outro “gigante ameaçador” é a neurótica fobia de não ser uma Esparta, esquecendo que na vulga “Esparta” há inúmeros prêmios Nobel, tecnologia e inovação e um dos maiores índices de publicações per capita comparáveis a vulga e imaginaria “Atenas”. Espero que esta potencial cisão do mundo judaico cesse. Ela só cessará quando o fenômeno milenar do “Libelo contra a Terra” finalmente desaparecer. Que as palavras do livro de Josué inspirem o fim deste libelo e principalmente possam gerar a paz entre todos os povos e todas as fés: Chazak veEmatz (forte e com boa coragem).

1 Comentário a O FÊNOMENO DO “LIBELO CONTRA A TERRA (DE ISRAEL)”

  1. Mario Cardoni's Gravatar Mario Cardoni
    27 de junho de 2016 at 18:54 | Permalink

    Excelente texto.

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