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Nota da Sociedade Beneficente Israelita de Santa Maria sobre pichações nazistas na UFSM

25.08.2017

Nas duas últimas semanas, o mundo assistiu estarrecido à marcha racista ocorrida em Charlottesville. Com palavras de ordem, cartazes e cânticos supremacistas, buscavam afirmar a superioridade do homem branco, cristão, heterossexual.

Movimentos como este crescem em meio a um mundo de intolerância e ódio. Os acontecimentos hediondos que marcaram a metade do século XX de nada serviram de aprendizado de tolerância e respeito ao próximo.

O que não contávamos, entretanto, é que tais fatos chegariam a Santa Maria. No último mês, dois episódios chamaram a atenção da Sociedade Beneficente Israelita de Santa Maria, ambos devidamente documentados abaixo, e com o acompanhamento próximo da Federação Israelita do RS.

O primeiro, foi a exposição do livro “Minha Luta”, de Adolf Hitler, na vitrine da Livraria da Mente, no Calçadão de Santa Maria. Ainda que se admita a importância histórica deste livro, a acadêmicos e curiosos, o fato mais grave é sua exposição em uma vitrine. Quando uma obra desta natureza é chamariz, significa que o racismo é um produto vendável.

O segundo fato foi a denúncia responsavelmente feita por membros do Diretório Livre do Direito, que ao chegar em sua sala – que é aberta a toda a comunidade acadêmica – depararam-se com desenhos de cunho nazista em suas paredes. Ainda sem a identificação dos responsáveis, o fato foi imediatamente comunicado à Federação Israelita de Santa Maria e à Polícia Federal – PF, que instaurou inquérito.

Em pleno 2017, não se admitem desenhos desta natureza, nem mesmo como ‘brincadeira’. Não se brinca com a memória de 6 milhões de judeus exterminados em campos de concentração.

O que mais assusta é que o ‘ovo da serpente’ esteja sendo chocado no berço da intelectualidade santamariense (livraria e universidade).

Impossível não associar os fatos acima, com importante passagem histórica, em que o arbítrio e a tirania tentaram se ocupar dos privilegiados espaços da cultura e do conhecimento. Era 12 de outubro de 1936 e o salão de honra da Universidade de Salamanca estava lotado de estudantes, professores e falangistas (fascistas espanhóis) para as comemorações do “Dia da Raça”.

O General Millán Astray tomou a palavra e iniciou seu discurso amaldiçoando os bascos e catalães, prometendo que o fascismo iria exterminá-los, ao que alguém gritou da platéia “Viva la Muerte”.

O reitor, Don Miguel de Unamuno, indignado com o que estava ouvindo ergueu-se então. Virou-se para o general Astray e disse-lhe que não poderia permitir que bascos e catalães fossem vilipendiados na sua presença. E que também não aceitaria que em plena casa da sabedoria viessem aclamar a morte, com “um brado necrófilo e insensato”.

Atribuiu aquele desvario todo ao fato do general ser “um aleijado destituído da grandeza moral de Cervantes” (Astray era um militar mutilado pela guerra), que tendia a compensar-se da sua desgraça procurando mutilações ao seu redor.

Nesse momento, ao escutar as derradeiras palavras de Unamuno, o general Astray furioso e de pé, fazendo a saudação fascista, bradou: “Abajo la Inteligencia!”, complementando com mais um “Viva la Muerte!”.

Unamuno não se intimidou. Voltou-se para ele e disse-lhe: “este é o templo da inteligência. E eu sou o sacerdote mais alto. Sois vós que profanais este sagrado recinto. Ganhareis, porque possuís mais do que a força bruta necessária. Mas não convencereis – Venceraos pero no convenceraos! – porque para convencer é necessário persuadir. E para isso vos falta a razão e o direito em vossa luta.”

Por fim, importante referir que o povo judeu, ao longo dos anos, resistiu, mesmo sendo perseguido, desterrado, quase exterminado, com o único propósito de sobreviver. Em Santa Maria, berço da imigração judaica no Sul do Brasil, os primeiros colonos receberam uma gleba de terra improdutiva, e, com muito trabalho e esforço, fixaram raízes no coração do Rio Grande e se destacaram pelo comércio, pelas ciências e pelo pensamento.

Hoje, a Sociedade Beneficente Israelita de Santa Maria mantém em atividade uma Sinagoga, mesmo com poucas famílias judias em Santa Maria, mesmo com dificuldades, a fim de que possamos professar nossas crenças e reavivarmos nossas tradições.

Não toleraremos qualquer atitude que vise minimizar a dor de nossos antepassados, ou de sufocar nossas raízes, crenças e cultura. Temos a plena confiança nas instituições que encabeçam as competentes investigações, bem como na Reitoria da UFSM – Universidade Federal de Santa Maria, na pessoa do Prof.Paulo Afonso Burmann.

Conclamamos a comunidade santamariense, gaúcha e brasileira, assim como nossos irmãos cristãos, muçulmanos, espíritas, umbandistas para juntos fazermos uma corrente de respeito e tolerância, sufocando discursos de ódio isolados, mas que põem em risco nossa existência pacífica.

O fascismo, o nazismo e a intolerância NÃO PASSARÃO!

Santa Maria, 24 de agosto de 2017.

Bruno Seligman de Menezes
Presidente da SBISM

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