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Marcos Weiss Bliacheris

Inclusão se aprende em comunidade

06.08.2018

A inclusão se aprende na prática, vivendo. Ninguém aprende a incluir somente nos livros. Existe a teoria, mas nada disso adianta se não convivemos com as diferenças, se as pessoas com deficiência não estão em nosso meio.

Inclusão também se aprende na comunidade. Meus primeiros exemplos de convivência com deficiência, de respeito às pessoas com deficiência vieram do convívio comunitário.

Recordo sempre do “tio” Levi. Pai do Leandro, do Leonardo e do  Lúcio. Pessoa de simpatia única que encontrávamos ao descermos as escadas e entrarmos no saguão do Colégio Israelita. Surdo e mudo, como se costumava chamar. O termo mais adequado é surdo não oralizado.  Com ele, aprendíamos a nos comunicar de um jeito ou de outro. Lembro da sensação boa de, ainda criança, conseguir estabelecer um diálogo apesar das dificuldades.

Só adulto fui descobrir que Levi Wengrover era um militante dos direitos dos direitos dos deficientes auditivos e que lutava pela inclusão no mercado de trabalho. Não aquela inclusão atrapalhada somente para cumprir cotas mas no preenchimento de vagas onde as habilidades dos deficientes auditivos seriam valorizadas, como a sua alta capacidade de concentração. Uma luta que segue viva, pois o mercado de trabalho ainda não aproveita as características das pessoas com deficiência que são mal remuneradas, isso quando conseguem um emprego.

Desse convívio carrego uma história. Quando Levi, o já falecido pai de meu colega de aula foi se alistar no Exército, a autoridade militar duvidou da condição do deficiente auditivo. A situação só piorou quando várias bandejas caíram e Levi teria se virado. É evidente que ele sentiu a vibração, mas foi o bastante para que o auto-nomeado especialista em surdez decretasse que havia uma fraude.

Pessoas com deficiência convivem com essa desconfiança e injustiça diárias. Basta uma fila preferencial de cinema ou de supermercado para vermos aflorar o pior da humanidade. A deficiência parece estar sempre em julgamento e qualquer um pode ser seu juiz. Ou algoz.

A  pessoa que mais me ensinou sobre a importância da inclusão foi o Raul. Filho do Ivo e da Regina, ele sempre esteve em minha vida. Primeiro, muito pequeno, depois foi crescendo. Hoje, tenho mais cabelo que ele!

O que o Raul me ensinou não tem preço, além das muitas risadas que demos.

Muito cedo percebi que ele era diferente. Não perguntei por quê. Só soube a razão faz pouco tempo. Ele era o Raul, que vinha nos visitar com toda família, que estava nos jantares na nossa casa e na dele e que sempre passeava junto conosco.

Se hoje é difícil para as pessoas com deficiência usufruir do espaço público, imagino nos anos 1980, o que só faz aumentar a admiração que tenho da família deles que levavam o Raul para todo canto.

Muito cedo, aprendi que as pessoas se incomodavam com aquele menino que começava a cantar em voz alta de repente. Para a gente, era o jeito dele e só. Algumas vezes, ouvi que não deveriam levar o guri para os compromissos sociais e eu já via uma crueldade nisso pois ele era uma criança, não era para ficar trancado em casa.

Uma noite, um amigo meu foi comer um churrasco lá em casa. Quando saímos da mesa ele me ficou falando de como Raul o incomodava, como era impossível ficar perto dele e começou a imitá-lo. Naquela noite tive uma lição de algo que se repetiria muitas vezes: que mesmo pessoas que achamos legais, podem se comportar como verdadeiros babacas preconceituosos diante da diferença.

A verdade é que esse passou a ser um parâmetro para mim. Quem não gostava do Raul, quem reclamava da presença dele, boa gente não era.

É importante para uma sociedade ter espaço para todos. Ainda mais em uma comunidade pequena como a judaica e sendo a inclusão de pessoas com deficiência uma atitude tão cheia de valores judaicos como o amor ao próximo e a responsabilidade com os demais membros da comunidade.

Quando uma pessoa com deficiência é excluída da comunidade, é  muito provável que o restante da família acabe se afastando junto pois já não considera o espaço comunitário como seu.

Jay Ruderman, que comanda uma fundação com sede em Boston que trabalha com inclusão em comunidades judaicas ao redor do mundo, diz que ao fecharmos os olhos para as pessoas com deficiência, que representam cerca de um quinto da população, estamos perdendo o trem da continuidade judaica. Lembra que para as novas gerações, a inclusão já um valor e, se não encontrarem espaços inclusivos dentro da comunidade judaica, irão procurar outro lugar que esteja de acordo com seus valores.

Não custa lembrar que, diante do aumento da expectativa de vida da população em geral, praticamente todos nós enfrentaremos alguma limitação ou deficiência em algum momento da vida. Para quem acha que não tem nada a ver com esse texto: o próximo excluído pode ser você.

 

2 Comentários a Inclusão se aprende em comunidade

  1. Gladis's Gravatar Gladis
    6 de agosto de 2018 at 22:07 | Permalink

    Boa noite. Sou irmã da Regina e tia do Raul. Fiquei emocionada de ler seu artigo e tudo o que o Sr. falou a respeito dele. Realmente o Raul é um deficiente mas mais do que isso é uma pessoa carinhosa, emotiva, e gosta de quem gosta dele. Infelizmente algumas pessoas insensíveis até se incomodam com os gritos e atitudes dele. Mas Graças a Deus ele tem uma família que leva o Raul em todos os lugares e não o “aprisiona” em casa como alguns fazem. Obrigada pelas suas considerações com ele. Um abraço, Gladis.

  2. Tamara Socolik's Gravatar Tamara Socolik
    5 de outubro de 2018 at 19:10 | Permalink

    Maravilhoso texto. Realmente as coisas andam mudando e as pessoas com deficiência já não ficam mais escondidas em casa, ou seja, aos trancos e barrancos, nossa civilização evolui em alguns aspectos. Tenho uma prima da minha idade que nasceu com uma deficiência que ainda não tem classificação ou diagnóstico e minha tia sempre teve essa atitude de não escondê-la. Andando pelas ruas com a Lara, permanecendo nos lugares com ela, passei a me acostumar com os milhares de olhares curiosos (que outro termo podemos usar?) que ela atrai, aonde quer que vá. Conviver com todas as pessoas, ainda mais na comunidade, é um exercício de humildade e responsabilidade.

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