Blogs

Rogério Friedman

Sou médico e professor universitário. Vivo num meio onde se busca aprender com a História, se busca a verdade e se trata de cuidar do ser humano. Este espaço acolhe ideias atuais, mas não aceita intolerância ou preconceito de nenhuma ordem.

Herança

11.03.2016

Lula se envolveu com lavagem de dinheiro, tráfico de poder e corrupção? Cabe à Polícia, ao Ministério Público e ao Judiciário responder a estas perguntas. Enquanto não o fizerem, não se pode afirmar cabalmente que Lula tenha parte nos malfeitos que vêm sendo desvendados.

Ao longo de 4 décadas, Lula se transformou num ícone da política brasileira. De origem humilde, alcançou o posto máximo na carreira política. O momento atual não é bom para o ex-Presidente. Há tensão, desconfiança, ódio mesmo. O Brasil está dividido. Apoiadores e detratores gritam com paixão.

Mas a Era Lula já deixou legados importantes e inquietantes. As heranças culturais da era Lula-Dilma-PT-e-aliados são complexas e podem deixar sequelas por muitas décadas.

A primeira das heranças é a supervalorização do ser pobre e não educado. O ex-Presidente usa sua origem humilde como idealização do bom cidadão, do homem puro, ungido pela divindidade e o único capaz de liderar sem conflitos de interesse. Ser pobre e ter sido privado de educação formal não são predicados dos santos (ainda que assim o quisessem as organizações religiosas da Idade Média). São infortúnios da vida em um país de imensos contrastes sociais. Infortúnios que todos devemos combater. Mas que não tornam um homem melhor que outro e não o fazem menos sujeito a desvios e tentações. Lula usou e usa sistematicamente sua origem modesta, de infância pobre, como valor que o torna melhor. Insiste em dizer que  “a elite” o pressiona por ter ele uma origem humilde. Afirma que há um projeto de poder que discrimina e ignora os pobres deste país (que, aliás, foram “resgatados da pobreza”, de forma messiânica, por ele e seus colaboradores). Ignora que o sonho acabou por erros de seu próprio governo e de sua sucessora. Busca inflamar a Sociedade com ideias de luta de classes e rejeição de pobres por ricos e de ricos por pobres.

Mas, desta falácia, surge o desvio mais cruel, que não é de natureza econômica ou ideológica. Ao supervalorizar sua trajetória pessoal, implica que ninguém precisa estudar formalmente para ser líder ou salvador. Reitera que um operário sem educação formal pode, sim, chegar ao cargo máximo do País, desde que seja inteligente, articulado e “puro”. Inteligência e capacidade de articulação são habilidades talvez inatas. O “puro” é dogma, vem por conta de uma crença. A Constiutição faculta a todo e qualquer cidadão se candidatar ao cargo de Presidente da República. Não exige títulos acadêmicos. Basta ser alfabetizado, ter ficha limpa e estar no gozo de seus direitos políticos. Mas a História ensina que a probabilidade de uma pessoa sem educação formal chegar ao topo é tão pequena que o próprio Lula foi tido como uma exceção. Não foi milagre. Foi oportunidade. Foi uma conjunção de fatores que o levaram ao sucesso. E, certamente, não foi a falta de educação formal que o elevou ao posto. Ela é fato, mas não é fator. Ao insistir que, sem educação, ele foi um grande líder, está dizendo subliminarmente a milhões de jovens que, talvez, estudar não seja necessariamente o caminho do sucesso. Esquece que, sem educação formal, quase nenhum dos jovens de hoje terá as oportunidades que ele mesmo teve ao longo da carreira. Se vamos ter um projeto de Nação pluralista, democrática e digna, este projeto não passa por nenhum outro caminho que não a educação formal, universal, completa e de grande qualidade. A continuar esta fabricação de imagem, corremos sério risco de afundar o país num oceano de ignorância.

A segunda herança é o conflito. Muitos se queixam dos conflitos, da “grenalização” e da perda da cordialidade usual do brasileiro. A tendência é se atribuir à crise. Mas a forma de conduzir o poder pelo grupo de cidadãos que ultimamente usufrui dos cargos mais altos passa por formas sutis – ou nem tanto – de incitação. Pobres contra ricos, mulheres contra homens, homoafetivos contra heteroafetivos, afrodescendentes contra descendentes de europeus, “coxinhas” contra “petralhas”,  ciclistas contra motoristas. O discurso é intenso, rosto pletórico, punhos crispados. O erro está no “contra”. O erro está na fúria. Há pendências, há questões que nossa Sociedade ainda não resolveu. Minorias foram historicamente discriminadas. Hoje, algumas gozam até de privilégios legais. Mas incitar passa longe da melhor forma de integrar, harmonizar, mesclar e progredir. Bastaram menos de duas décadas para vermos o Brasil ficar amargo, intolerante, verborrágico e furioso. No Brasil, “todo mundo tem direito”, mas a noção de direito é individualista, territorial, possessiva e beligerante. Políticos comprometidos com um projeto de Nação deveriam buscar soluções progressistas, baseadas na Democracia, na igualdade de oportunidades, na tolerância, na coexistência e – de novo – numa educação universal de altíssima qualidade. Incitar é o oposto de harmonizar, irmanar e olhar para o futuro. A herança do conflito é a cicatriz mais dura de uma forma ultrapassada de ver a realidade.

A escola Lula-PT vai acabar. É questão de tempo. Pode ser antes, se houver causa para ação da Justiça, ou mais adiante, pelo andar do tempo, pelo esgotamento. Mas a Sociedade brasileira vai ficar com um fardo cultural para administrar. E é bom que comece a administrar logo. O caminho para uma forma mais digna de Sociedade já era difícil. Com estes elementos culturais, será muito mais longo.

Deixe um Comentário

Outros Artigos de Rogério Friedman

Eleições municipais à vista! Nossas cidades causando doença?

16.06.2016

Em uma pesquisa realizada no Canadá, cientistas mostraram que, nas áreas onde as condições favorecem o caminhar, a incidência...

Omar em Orlando

13.06.2016

Hoje cedo, Omar Mateen, cidadão americano, filho de pais afegãos, entrou numa boate gay na cidade de Orlando, Estados...

O “impeachment” e a segurança

23.04.2016

Os escândalos de corrupção na esfera federal, a Operação Lava Jato e o ocaso do Governo Dilma terão incontáveis...

Ódio

09.02.2016

  Há tanta coisa acontecendo, um verdadeiro excesso de temas para abordar. Porto Alegre foi devastada por uma tempestade....

Isso não é um obituário

21.01.2016

O Cóqui partiu! Ele gostava de mim. Eu sabia. Eu gostava dele. Ele sabia. Meu primo. Meu amigo. Ponto...