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Entrevista com Celso Lafer sobre a perda de Shimon Peres

05.10.2016

Eugenio Goussinsky, do R7

Enquanto o sol nascia no horizonte da Judeia, e os vales e montanhas sorviam o aroma da madrugada, Israel perdia mais um grande líder de sua história. Shimon Peres, ex-primeiro-ministro e ex-presidente, entre outros, se despedia da exuberância das paisagens históricas, da terra que ele amava, deixando como legado a sua luta pela existência do Estado judaico e sua busca de conciliação deste com o mundo.

A morte de Shimon Peres, na madrugada do último dia 28 em Israel, aos 93 anos, decorrente de um derrame, é uma perda sem igual tanto do ponto de vista político quanto diplomático, na opinião de um dos diplomatas brasileiros que mais conviveram com ele, o ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Lafer (em 1992 e entre 2001 e 2003), de 75 anos, membro da Academia Brasileira de Letras, entre outras atribuições.

Em entrevista ao R7, Lafer lembrou de algumas características marcantes de Peres, afirmando que a dimensão simbólica dele foi a de saber apresentar Israel para o mundo sem perder a preocupação com a segurança do país. Neste sentido, Peres considerava, como diz uma famosa música israelense, a Terra de Israel bonita (Eretz Israel Iafá), uma terra também portadora de boas notícias, apesar das dificuldades. E das despedidas.

R7 – Como diplomata, como o senhor vê a perda de Shimon Peres?

Celso Lafer – Diria que o Shimon Peres era um homem de múltiplas facetas mas uma das mais significativas é a dele como diplomata e, nesse sentido, não há a menor sombra de dúvida que ele foi um extraordinário ator diplomático, que deu substância e legitimidade à presença de Israel no mundo.

R7 – Mas além de diplomata, Peres era um político. Neste sentido, qual a repercussão da morte dele?

CL – Uma das características da ação diplomática se dá naturalmente obtendo o respaldo interno, mas ela se volta para a ação com outros países, sociedades e culturas. É da natureza da atividade diplomática normalmente o que poderíamos chamar de representação dos interesses políticos e jurídicos de um país. Mas é também a representação simbólica do que um país representa no mundo para os outros países. Nesse sentido, um dos extraordinários méritos do Shimon Peres foi o de ter articulado com muito sucesso, por suas qualidades, a dimensão simbólica, e muito válida, do papel de Israel no mundo.

R7 – De que maneira Peres conseguia realizar este trabalho conciliatório?

CL – Entre os dotes que ele tinha estava o de saber reconhecer como apresentar Israel para o mundo, levando em conta outras perspectivas que não apenas as prevalecentes no plano interno do país. Acho que ele acabou encarnando a importância que Israel atribui à paz, ao reconhecimento de que deve buscar um entendimento com seus vizinhos e com os palestinos. Acho que a fase final dele como presidente foi um período em que ele exerceu admiravelmente bem esse papel, essa função. Porque ele tinha autoridade, uma autoridade que era menos do que um comando e mais do que um conselho. Uma autoridade política de lastro moral.

R7 – Como membro da comunidade judaica, como o senhor vê a morte de Shimon Peres?

CL – Como uma grande perda, a perda de alguém que entendia o mundo e também entendia as comunidades judaicas fora de Israel. A perda de alguém que tinha uma visão humanista e não provinciana, algo extremamente importante no mundo de muitas tensões e conflitos em que vivemos.

R7 – Ele lutou para implementar e proteger o Estado de Israel, mas depois buscou a paz (obteve o Nobel em 1994, ao lado de Itzhak Rabin e Yasser Arafat). Como o senhor vê essa atuação?

CL – Shimon Peres teve um papel inicial (a partir dos anos 30) também seguindo a liderança do (David) Ben-Gurion (ex-primeiro-ministro nos anos 40, 50 e 60) quando era necessário construir um Estado e assegurar a sua defesa, mas também se deu conta de que, depois de consolidado o Estado e construídos os ingredientes de sua segurança, era preciso ter uma visão que fosse mais além disso. Para dar, enfim, condições de uma efetiva segurança de Israel no mundo, não isolando Israel ao âmbito mais circunscrito das questões de proteção.

R7 – Nos anos 50, Israel viveu um conflito de opiniões: o ex-ministro de Relações Exteriores, Moshe Sharret, valorizava muito a imagem que Israel passava para o mundo. Ben-Gurion preferia primeiro garantir de maneira rígida a segurança, sem se importar muito com opiniões alheias. Peres aglutinou essas duas correntes?

CL – Sem dúvida nenhuma o Moshe Sharret foi quem, vamos dizer, implantou a diplomacia israelense. Não foram muitos os que foram na linha do Sharret. Um dos que tiveram papel importante foi o Abba Eban (ex-ministro das Relações Exteriores, entre outros cargos, entre 1966 e 1974, que morreu em 2002 aos 87 anos), que seguiu essa linha. O Peres com sua personalidade e com sua trajetória próprias também reconheceu a importância da diplomacia, coisa que nem sempre é ou tem sido a característica principal das lideranças israelenses.

R7 – Quando o senhor foi ministro das Relações Exteriores, como foi seu contato com Shimon Peres, que ocupava a mesma função em Israel?

CL – Foi ótimo, tive bastante contato com ele quando ele era Ministro das Relações Exteriores e eu também. Mas também no correr dos anos em diversas circunstâncias mantivemos contato e posso dizer que sempre foi um grande prazer e um grande estímulo dialogar com uma pessoa da categoria dele. Era uma pessoa de diálogo facil, de grande repertório cultural, de grandes interesses culturais e sabia enquadar no concreto o âmbito geral dos problemas.

R7 – Há algum momento ou alguma história vivenciada nessas ocasiões que o senhor destacaria?

CL – Acompanhei, como embaixador em Genebra, o então ministro das Relações Exteriores Lampreia (Luiz Felipe, morto em fevereiro de 2016) em uma importante visita que ele fez a Israel. E foi, naquela ocasião, uma oportunidade de conversar tanto com o Shimon Peres, então Ministro das Relações Exteriores, quanto com Itzhak Rabin (assassinado em 1995, por um radical contrário ao acordo assinado com os palestinos) que era o primeiro-ministro. E me impressionou muito a parceria que naquele momento eles tinham construído, sendo personalidades muito diferentes, mas complementares. E penso que essa complementaridade, que se viu afetada infelizmente pelo assassinato do Rabin, era uma muito boa combinação de como associar as preocupações internas com os desafios externos.

R7 – Peres era uma referência em relação à paz. Mesmo estando formalmente afastado há algum tempo, a morte dele terá algum tipo de interferência no processo de negociações entre Israel e os palestinos, atualmente paralisado?

CL – Você sabe que ele criou um Instituto para a Paz (The Peres Center For Peace, em 1996), em Tel Aviv-Jaffa,  que era um meio de continuar atuando. A autoridade, citada por mim anteriormente, não depende do cargo, depende da pessoas e dos seus atributos. Não vejo ninguém no espaço público israelense que possa substituí-lo nesse papel. A questão das negociações é um problema complexo e de difícil enquadramento, agora, a presença dele era a presença do estímulo da paz, de quem trabalhou os acordos de Oslo (1993), era a presença de uma visão israelense mais construtiva e mais aberta. A questão já é dificil pela natureza dos problemas e fica mais difícil se não houver figuras de referência, como a de Peres, que ajudem nesse processo.

 

Fonte: Portal R7

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