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Rogério Friedman

Sou médico e professor universitário. Vivo num meio onde se busca aprender com a História, se busca a verdade e se trata de cuidar do ser humano. Este espaço acolhe ideias atuais, mas não aceita intolerância ou preconceito de nenhuma ordem.

Eleições municipais à vista! Nossas cidades causando doença?

16.06.2016

Cidades contribuem para doenças. Foto: Rogério Friedman

Em uma pesquisa realizada no Canadá, cientistas mostraram que, nas áreas onde as condições favorecem o caminhar, a incidência de obesidade e diabetes tipo 2, entre os anos de 2001 e 2012,  foi menor.

Os pesquisadores criaram um índice de “caminhabilidade” (walkability), que estabelece o quanto uma vizinhança favorece o caminhar. Este índice avalia a densidade populacional, a densidade de residências, o número de serviços e estabelecimentos próximos o suficiente para serem alcançados a pé (bancos, bibliotecas, centros comunitários, escolas, lojas) e conectividade das vias públicas.

A pesquisa também avaliou a situação sócio-econômica dos moradores e da região e indicadores de atividade econômica (número de academias, bares, cafés), distância ao parque mais próximo e acesso a serviços de saúde.

Entre  8777 vizinhanças estudadas, as que pontuaram mais alto no índice também tiveram as menores incidências de obesidade e diabetes. E isto de forma independente das questões sócio-econômicas.

Nas cidades brasileiras, a frequência de obesidade e de diabetes vem aumentando há pelo menos 3 décadas. Esta “epidemia” afeta crianças e adultos, indistintamente. É claro que há fatores alimentares. Padrões alimentares são em parte definidos pela cultura prevalente. Mas, no caso das nossas cidades, há o preço da comida. Frutas, verduras, carnes magras (incluindo peixes e aves) são mais caras que alimentos industrializados, ultraprocessados e altamente calóricos. O custo da alimentação ajuda a entender por que a obesidade é mais frequente nas faixas de renda mais baixas.

Mas, pensando no estudo canadense, é óbvio que nossas cidades não são “caminháveis”. As vizinhanças não têm serviços padronizados e há bairros inteiros onde facilidades do dia-a-dia são distantes das residências. As calçadas, mal conservadas e sem padronização, esburacadas e irregulares, são armadilhas constantes ao caminhante. Os parques são sujos e mal conservados, inseguros e negligenciados. A sinalização nas ruas é pobre. A iluminação pública claudica. Os motoristas não respeitam faixas de segurança, semáforos ou limites de velocidade. Dejetos de animais, papeis e restos de alimentos sujam e desfiguram os passeios públicos. A preferência histórica de nossos gestores pelo modal rodoviário implica índices elevados de poluição do ar e sonora. E, praga bem brasileira, os índices de violência urbana são alarmantes, crescem sem parar e mantêm as pessoas acuadas e prisioneiras de suas moradias.

Nossas cidades estão fazendo mal à saúde da população.Estamos, sim, fomentando a doença e a incapacidade produtiva, onerando os sistemas de saúde, destruindo a infância e reduzindo a expectativa de vida da população.

A responsabilidade de prefeitos e governadores não pode ser minimizada. O estado das cidades é, sim, fruto de sucessivas gestões incompetentes e indiferentes para com o cidadão. A falácia da pobreza como causa da deterioração da vida urbana não pode ser aceita pelo cidadão de bem. Cidades melhores também ajudam a reduzir a pobreza.

As eleições municipais estão aí. Pressione seus atuais representantes (prováveis candidatos a  reeleição) e os novos postulantes. Não relute em cobrar medidas efetivas, duradouras, sérias e focadas nas reais necessidades das pessoas. Não eleja mais promessas vazias.Fiscalize. Sem cidades dignas e humanizadas, “cidadania” não passa de uma palavra vazia.

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