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Rogério Friedman

Sou médico e professor universitário. Vivo num meio onde se busca aprender com a História, se busca a verdade e se trata de cuidar do ser humano. Este espaço acolhe ideias atuais, mas não aceita intolerância ou preconceito de nenhuma ordem.

Do ciclista mal educado à corrupção, o Brasil terá solução?

05.12.2015

Em seu blog do dia 4 de dezembro, “Guerra no Trânsito?” , Flavio Kanter descreve a atitude de um ciclista que insistia em não respeitar as convenções básicas do trânsito civilizado, mesmo colocando a si e aos outros em risco. Para aquele sujeito, lei e convenções seriam “apenas para os outros”. Situações como essa são, infelizmente, comuns em nossas cidades. Motoristas bloqueiam a entrada da garagem alheia, ignoram as faixas de pedestres, avançam o sinal, entendem o “Pare”, imperativo, como mera sugestão. Agressividade e grosseria são correntes.

Enquanto isso, o país vê um oceano de desonestidade, crime e falcatruas sendo exposto pelas autoridades policiais e judiciárias. Figuras significativas da República e grandes empresários, todos no mesmo barco. Esquemas de corrupção onde a lei parecia valer “apenas para os outros”.
No trânsito, o “jeitinho brasileiro” virou uma guerra. Na administração pública, o “jeitinho” deu origem ao crime. Portanto, o “jeitinho” é um traço cultural que perpetua o que há de pior em nossa sociedade. Na versão “brasileira”, o “jeitinho” se apresenta como um elemento perverso, de má relação com a lei geral, a norma que é destinada a todos para produzir legalidade e cidadania.

Na antiguidade, um regime de privilégios regrava os comportamentos em todo o mundo. Havia códigos de leis separados para nobres, clero e povo, códigos separados para homens e mulheres, códigos separados para religiões ou cor da pele. A democracia liberal, inventada pelos franceses e disseminada pela Constituição americana, acabou com o regime de privilégios. Instituiu um código universal dos direitos e deveres. Neste novo código, não há mais relatividade ou hierarquia diante da lei. A igualdade é assumida como valor central das relações entre os cidadãos e as normas. Todos têm os mesmo direitos, todos pagam impostos, todos são iguais perante a lei.
No Brasil, a República tentou fazer a revolução igualitária. Porém, se, na França, a revolução igualitária levou à guilhotina, aqui, se inventou o “jeitinho” e o “sabe com quem está falando?”. Se criou uma ficção: fazer de conta que todos obedecem a lei. Mas os velhos aristocratas e os novos donos do poder (os burocratas, os altos funcionários e os eleitos) se portam como “diferentes” do “povo”. Com isso, o privilégio de não cumprir integralmente a lei segue existindo sob um manto frágil de regime igualitário.

Foro privilegiado, vantagens salariais, imunidades, foram sendo incorporados ao longo da história republicana. No Brasil de hoje, persiste um estilo de lidar com a lei que é marcadamente aristocrático e que induz o “poderoso” (diretor, proprietário, patrão, político, presidente, “dono da rua”) a passar por cima da lei, porque ele a “empossa”, porque ele a corporifica. E não é só no meio da “aristocracia” que o “jeitinho” danifica o Brasil. Basta olhar para o trânsito de nossas cidades, para as filas de ingresso em espetáculos, para a percentagem de cheques sem fundo emitidos por gente comum. Muitos se sentem dotados de direitos especiais. Deveres são para “os outros”.

O “jeitinho” e sua irmã, a corrupção, fazem com que a lei seja desmoralizada e quem a cumpre, visto como tolo ou inferior.

Em 2002, Alberto Almeida usou dados da Pesquisa Social Brasileira (PESB, 2000-2002), da Universidade Federal Fluminense, para entender melhor conceitos defendidos por Roberto Da Matta. A PESB confirmou que o Brasil é hierárquico, familista, patrimonialista e, em última instância, culturalmente atrasado. De acordo com Almeida, o lado perverso do Brasil tende a ser menor à medida em que aumenta a escolaridade média da população estudada. A pesquisa apontou que, dos eleitores sem instrução, 53% tinham a opinião que um político que “faz muito e rouba um pouco” merecia voto. Entre os que cursaram pelo menos até a 4ª série do ensino fundamental, o percentual era um pouco menor, de 46%. Entre os que cursaram o 2º grau, apenas 38% aceitavam esta visão. Este número caia para 25% entre as pessoas com curso superior. E isto com as notórias falhas qualitativas da educação brasileira. A corrupção, a arrogância e o “jeitinho” podem passar a ser menos tolerados à medida em que mais cidadãos cursem mais anos de escola e este efeito pode ser maximizado se a educação for de qualidade.

Amigo Kanter, cito a última frase do teu artigo com foco em trânsito, cidadania e educação pessoal: “A convivência pode ser amigável. Faz um bem danado. E não faz ninguém chegar mais tarde ao destino”. Eu acrescentaria: usemos o espírito de solidariedade verdadeira, proposto pelo Flavio Kanter, para lutar para que Educação plena, de qualidade, não ideológica, seja um programa de Estado e não um mero “slogan” marqueteiro de perpetuação de mais um governo.

 

bicicleta e carro

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