Blogs

Rogério Friedman

Sou médico e professor universitário. Vivo num meio onde se busca aprender com a História, se busca a verdade e se trata de cuidar do ser humano. Este espaço acolhe ideias atuais, mas não aceita intolerância ou preconceito de nenhuma ordem.

Da intolerância à tragédia

15.11.2015

Os atentados terroristas de outubro e novembro em Israel, em Beirute, a derrubada do avião russo e o clímax catastrófico em Paris geraram grande, ainda que assimétrica (Paris muito mais do que Beirute ou Jerusalém), comoção. Todas as correntes de pensamento sairam a analisar o fenômeno do terrorismo, o jihadismo e a intolerância. Todos têm lá seus demônios e os responsabilizam pelos acontecimentos. As esquerdas acusam o Grande Capital, a globalização e o colonialismo. Os setores conservadores atiram contra as esquerdas, o “politicamente correto” e a tolerância para com movimentos radicais. Religiosos de todas as correntes se acusam mutuamente.

Pensando no assunto, percebi que um aspecto está esquecido: os atentados terroristas dos últimos meses eram previsíveis e, não por acaso, foram precedidos por uma escalada de intolerância. A forma desta intolerância? Antissemitismo.

A História nos mostra que o antissemitismo é uma primeira manifestação de ódio, de discriminação rampante e de desagregação do tecido social. Nações que toleraram ou – pior – fomentaram o antissemitismo, se viram, a seguir, banhadas em sangue ou violações amplas dos direitos humanos. Assim se viu na Rússia dos Czares, na Alemanha nazista, na União Soviética de Stalin, na Espanha de Franco, na Polônia entre-guerras. Judeus foram discriminados, tornados bodes expiatórios e perseguidos antes de outras minorias, grupos nacionais-culturais ou rivais políticos. Quem gritaria por eles, afinal? Eram “apenas os judeus”. Em todos estes países, se seguiu enorme violência contra vastos setores da população, ou guerras, resultando em mortes incontáveis e sofrimento absurdo. Antissemitismo é o arauto da intolerância e da violência.

Na França do século XXI, o antissemitismo vinha aumentando. Milhares de judeus preferiram emigrar. Atentados, cemitérios vandalizados, violência contra religiosos e instituições, eram tratados, erroneamente, como ódio contra um grupo específico. Hipocritamente, políticos e jornalistas preferiam atribuir a violência a uma “desavença entre minorias”, por conta dos desentendimentos entre Israel e os palestinos. Ou, então, à ação de extremistas neo-nazistas que focavam preferencialmente em judeus. Ignoraram incontáveis alertas acerca da natureza do conflito, do conteúdo ideológico do extremismo islâmico, do aumento acelerado no número de jovens extremistas, da intensificação da pregação radical em casas de oração e em vizinhanças de maioria imigrante. Administradores e “pensadores” se mantiveram cegos pelo viés antissemita. Era tudo “somente contra os judeus”, que “mereciam o que vinha lhes acontecendo”.

Ledo engano. Havia estratégia por trás de tudo. Atacar judeus primeiro foi lógico. Afinal, uma minoria vítima de preconceito – odiada mesmo – ao longo de séculos, poderia ser agredida sem maiores consequências. Um balão de ensaio, como fizeram déspotas do passado.

Mas o jihadismo e o extremismo islâmico não têm por objetivo principal dizimar os judeus. Pregam a restauração do califado, a reconquista da Europa e a conversão ou extermínio dos não-muçulmanos ou dos muçulmanos que não sigam sua versão da Sharia (estes últimos, as vítimas mais numerosas dos radicais). Para o islã radical, o inimigo são os outros (todos).

Como em outros momentos, o crescimento do antissemitismo na Europa antecedeu a guerra global que está em curso. Ela pode ser breve ou longa, dependendo de como o mundo vai responder. Mas os avisos foram ignorados. A Europa e o mundo se esqueceram das lições da História.

Enquanto isso, o Brasil olha perplexo e ignora a progressão da intolerância em nossas terras. Não temos leis, preparo ou instituições capazes de lidar com o extremismo e o terrorismo. Querem saber o que nos espera? Basta acompanhar o crescimento do antissemitismo.  As mídias sociais, a postura de setores da imprensa e o episódio da UFSM sinalizam para um futuro sombrio. A não ser que, de olho na História, saibamos usufruir de nosso capital de tolerância e multiculturalidade, sem a hipocrisia do “politicamente correto” e sem dar qualquer espaço para ódios sectários.

Estamos à altura deste desafio?

blog 15112015

 

Deixe um Comentário

Outros Artigos de Rogério Friedman

Eleições municipais à vista! Nossas cidades causando doença?

16.06.2016

Em uma pesquisa realizada no Canadá, cientistas mostraram que, nas áreas onde as condições favorecem o caminhar, a incidência...

Omar em Orlando

13.06.2016

Hoje cedo, Omar Mateen, cidadão americano, filho de pais afegãos, entrou numa boate gay na cidade de Orlando, Estados...

O “impeachment” e a segurança

23.04.2016

Os escândalos de corrupção na esfera federal, a Operação Lava Jato e o ocaso do Governo Dilma terão incontáveis...

Herança

11.03.2016

Lula se envolveu com lavagem de dinheiro, tráfico de poder e corrupção? Cabe à Polícia, ao Ministério Público e...

Ódio

09.02.2016

  Há tanta coisa acontecendo, um verdadeiro excesso de temas para abordar. Porto Alegre foi devastada por uma tempestade....