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Fabio Lavinsky

CHANUKÁ- ILUMINANDO A REALIDADE PARA ENTENDERMOS AS TREVAS DO ANTISSEMITISMO

11.12.2015

Uma das minhas canções preferidas de Chanuka que demonstra que o milagre das luzes  não durou 8 dias e sim 2000 anos é:

Baanu Choshech legaresh (viemos expulsar as trevas)

Beiadenu Or vaEsh (nas nossas mãos luz e fogo)

Kol Ehad huOr Katan VeKulanu Or Eitan (todos nós somos uma pequena luz, todos juntos uma luz firme)

Sura Choshech Halla Shchor. Sura Mipnei Haor. (Saia escuridão a suas trevas, Saia de frente da luz)

Chanuka é definitivamente a festa das luzes. A festa dos milagres. A festa das vitorias impossíveis. A festa da sobrevivência do “Am Hanetzah” (do povo eterno). A festa cuja história é contada no Novo Testamento pelos Cristãos, o que denota que a vitória dos Macabeus e a ascensão do reino Hashmonaita foi fundamental para a continuidade da existência judaica na JUDÉIA, processo que resultou no nascimento de Jesus. As luzes do natal comemorado pelo mundo Cristão se intersectam com as luzes de Chanuká. No mínimo do ponto de vista histórico.

Porém, um aspecto importante que devemos comemorar em Chanuká é derrota das trevas pelas luzes. E comemorar significa lembrar e contar. A dicotomia entre as luzes e as trevas sempre existiu e provavelmente sempre existirá.

O Selêucida (grego), Antiocus Harashá era um antissemita, ou como os puristas semânticos bobos normalmente preferem em debates: um anti-judeu. Ele odiava os judeus e decidiu feri-los no epicentro de sua existência naquele momento: no Beit Hamikdash (templo sagrado). O antissemita sempre terá o foco principal do seu ódio voltado àquilo que é o paradigma mais forte da existência judaica naquele momento. E naquela época era o trabalho no Templo. O amalgama nacional, religioso, étnico que vinha em um crescente desde a volta da Babilônia e da Knesset Hagdola era o Templo. E exatamente ali, Antiocus quis nos ferir. Para destruir os judeus ele teria que destruir o elo com o Beit Hamikdash. Então ele profanou o templo de todas as maneiras possíveis. Profanou nossas filhas entre outras atrocidades. O resultado todos nós conhecemos, Matitiahu Hamacabi de Modiin (hoje uma bela cidade do Estado de Israel) se rebelou e seu filho Yehuda Hamacabi derrotou o jugo selêucida e o altar do templo foi milagrosamente reinaugurado. Já naquele tempo haviam judeus helenizados, que mesmo com o rei Selêucida profanando o que havia de mais sagrado, optavam pelo seu conforto e pelos prazeres terrenos que a cultura grega idolatra proporcionava.

Uma das lições que o ódio Selêucida já nos ensinava é que as trevas que emanam de quem nos odeiam são uma excelente bussola para sabermos no que o povo judeu tem o seu epicentro em cada era da história. É este epicentro que em cada era diferente da humanidade o antissemitismo tenta dinamitar. Após a queda do templo e as sucessivas revoltas dos judeus remanescentes, o imperador romano Adriano mudou o nome da província de Judéia para Palestina e Jerusalém para Aelia Capitolina. Esta manobra tinha como intenção tornar o povo judeu esquecido após a sua destruição pelos romanos. E mudando os nomes de sua terra e de sua cidade sagrada foi uma das estratégias empregada.

Lembremos então de outro Yehuda: Yehuda Ha Nassi. Ele teve um papel fundamental em documentar a lei oral na Mishna que encontramos toda a sabedoria dos Tnaim descrevendo a Torah She be AlPe (lei oral). Posteriormente vieram os Amoraim e a Guemará e se estabeleceu o Talmud. Ele transformou o povo judeu e viabilizou a manutenção da existência judaica de forma atemporal e fora da terra de Israel a despeito da existência ou não de um estado e de um templo (não esquecendo que as leis pertinentes a Terra de Israel e do templo se mantém vivas dentro do Talmud). O Talmud-Torá (que é o estudo da Torah como um todo) é um farol de luz cada vez mais forte hoje e sempre.

O antissemitismo religioso que perdurou por séculos, e até hoje encontra vasão, tem seu foco principal o Talmud. E teve a sua expressão máxima na Inquisição. Assim como a luz veste a alma com pensamento, palavras e ações, as trevas também têm estas características. O antissemitismo se veste de seu pensamento e de sua narrativa, de seu discurso de sua divulgação e de suas ações violentas em última instância. A inquisição é o exemplo máximo que caracteriza essa época, porem pogroms, expulsões sejam na Europa ou no mundo muçulmano, Dhimis, libelo de sangue, entre outros enchem nossa história de tristeza e de sangue. Porém a luz da resiliência se manteve acesa e viva.

Após esta fase do antissemitismo religioso temos uma transformação que justamente ocorreu no período iluminista. Neste período a assimilação foi grande e a ascensão social, acadêmica e econômica dos judeus da Europa ocidental foi intensa e brusca. Os bancos e a mídia tiveram nos judeus grandes e influentes atores. Do outro lado, as ideologias socialistas também tiveram grandes pensadores e militantes judeus. Então mais uma vez a escuridão do ódio sofre metamorfose. O ódio aos judeus era ao “domínio” e a “influência” que fora resultado da própria assimilação. O foco era menos nos judeus focados no Talmud-Torá e mais nos judeus que acenderam em posições disputadas com cidadãos de todas as sociedades livres europeias. Este antissemitismo tem exemplos de sua divulgação e propagação escritas nos “Protocolos dos Sábios de Sião”, no “Mein Kampf” e tem sua expressão violenta máxima no Holocausto.

E neste período onde as nações da Europa se autodeterminam e se tornam países livres nasce o movimento nacional judaico: o Sionismo. O sionismo surgiu para realizar uma revolução: o renascimento da autodeterminação judaica na sua terra ancestral. Ele se propunha a criar um novo velho judeu: livre, altivo, que sabe se defender, que fala a sua língua eterna (o hebraico) e que implementaria uma sociedade que como na profecia seria “Uma luz para as nações”.

A revolução sionista tão sonhada e simbolizada com a imagem de Hertzl na sacada da Basiléia, obteve sucesso. Entre este sonho, sua realização e o ano de 2015 obviamente há muito o que dizer. Mas resumamos assim: hoje os judeus são autodeterminados em um estado democrático em parte da Terra de Israel, o hebraico é falado como língua viva, o Estado de Israel sabe se defender de ameaças gigantescas e um judeu novo- nem ashkenazi e nem safaradi nasceu. A oração de “Kibutz Galuiot” é uma realidade. Falamos ao acender as velas de Chanuká: “Sobre os milagres, sobre as maravilhas, sobre as guerras e sobre as salvações que fizeste para os nossos pais naquele tempo e neste tempo!”. Com certeza isto se aplica a forma quase que milagrosa que o Estado de Israel foi criado e vem se fortalecendo cada vez mais.

Após o Talmud e as decorrentes perseguições e inquisição. E após haHaskala , os Protocolos dos Sábios de Sião e o holocausto, o antissemitismo assim como um camaleão traiçoeiro se transforma e muda de cor e de cara. O foco do antissemitismo de 2015 é o sionismo. Ardilosamente ele usa os outros momentos da história para tentar dizer que a negação ao direito de autodeterminação de um povo em sua terra, que pregar a violência e a morte de civis judeus na “resistência” e o boicote de todos os cidadãos judeus de Israel e de seus produtos não é antissemitismo.

O vulgo anti-sionista odeia os judeus tanto quanto todos os outros antissemitas da história. Apenas mudou a “roupa”: o pensamento é outro, o discurso é outro e a violência é outra. Porém há intersecção e sobreposição destas ideias. Muitas vezes vemos vulgos anti-sionistas descrevendo sionismo de forma ignorante: “sionismo é o domínio dos bancos e da mídia pelos judeus imperialistas cuja agenda é oprimir os palestinos”. Muitas vezes vemos o repertorio do libelo de sangue da época medieval da Europa sendo usado para descrever consequências das ações defensivas de Israel contra grupos terroristas.

O anti-sionista ainda usa um subterfugio semelhante ao da inquisição. Ele dá ao judeu a chance de se “converter” e não ser “queimado” na fogueira do ódio. Se o judeu se declara anti-Israel ele pode ser aceito nos círculos antissemitas. Se ele incentiva movimentos de ódio contra o próprio povo como o BDS (boicote desinvestimento e sanções) ele ilusoriamente terá uma sobrevivência “politicamente correta” nestes círculos habitualmente de esquerda.

E por que se há um pensamento e uma propaganda antissemita tão forte como nos outros períodos e ainda assim não houve algo tão terrível como pogroms, inquisição e holocausto? Pois diferentemente de outros períodos, hoje o Estado de Israel é inspirado pelos espirito Macabeu. Hoje Israel sabe se defender. A motivação dos inimigos é de expulsão em massa e de genocídio. Não fazem isso não porque não querem, mas porque não podem. Não esqueçamos que no mundo árabe não sobraram 7 mil judeus. Todos os outros foram expulsos. Além disso, não subestimemos a expressão violenta na qual o antissemitismo atual se manifesta: o terrorismo e a guerra. As perdas são gigantescas, dolorosas e irreparáveis.

Como mantermos a luz vitoriosa frente as trevas que de geração em geração novamente tentam apaga-la? A resposta é exatamente fortalecer aquilo que elas tentam a todo custo destruir. E assim como há uma sobreposição e somação do antissemitismo religioso, econômico e nacional, o nosso papel é buscar com tenacidade macabéia reforçar o Talmud-Torá nosso e para nossos filhos, buscar a excelência acadêmica e intelectual nas ciências e no pensamento laico e finalmente fortalecer a perenidade e defender a independência do Estado de Israel. A coluna vertebral que passa por estes três eixos e mantém eles eretos e conectados é o estudo profundo da história judaica e a fluência na língua hebraica.

Rezemos e torçamos pela paz e pela vitória total da luz frente as trevas selando de forma definitiva o fim da dicotomia luz x escuridão que nos acompanha há milênios!

Chag Sameach!

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