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Fabio Lavinsky

Caetano e o “Banho de Purificação” nas Águas Sujas do Libelo

12.11.2015

Eu fui no show dos cantores Caetano Veloso e do Gilberto Gil no estádio Yad Eliahu em Tel Aviv em Julho deste ano. Estava de férias em Israel e pretendia ir com a minha esposa, porém minha filha estava febril e então levei meu filho mais velho. Durante a viagem de carro de Jerusalém para Tel Aviv expliquei para o meu filho que assistiríamos dois grandes expoentes da história da música brasileira. Realmente foi uma experiência única e memorável. O show estava ótimo. O público vibrou, cantou e os cantores devem ter feito pelo menos 3 bis.

É importante resgatar que os meses que antecederam o show foram repletos de tentativas de dissuadir os cantores de se apresentarem em Israel. Antissionistas no Brasil e no mundo pressionavam a dupla a aderir ao BDS (boicote, desinvestimento e sanções) à Israel. O mais celebre deles: Roger Waters, que trocou cartas com eles. Porém a dupla se manteve irredutível. Sua atuação foi com certeza um dos maiores “cases” de vitória contra o BDS. As respostas que eles davam tinham um tom de tolerância e deixavam clara a diferença entre discordar de questões políticas e de pregar racismo e ódio. Eles refutaram o BDS que nada mais é do que uma punição coletiva contra tudo e todos apenas por serem judeus de Israel.

Surpreendentemente, passados menos de 6 meses do show, Caeatano Veloso publica um artigo lamentável onde ele adere a uma narrativa unilateral, preconceituosa e generalizadora do conflito. No curtíssimo tempo que ele ficou em Israel, mesmo tendo feito os típicos “hate-tours” organizados por grupos antissionistas israelenses de extrema-esquerda, não haveria como ele ter conhecido todas as facetas do conflito. Algumas citações que ele faz no artigo são abomináveis, e claramente fruto de conversas ao pé do ouvido. Prof. Leibowitz, por exemplo, era sionista de forma incondicional, nunca aceitaria ter suas ideias utilizadas como pedras contra o seu próprio povo. As pedras que Leibowitz jogava eram para construir, as que Caetano aprendeu a jogar são para destruir.

Por que essa postura repentina e destoante com a maneira ponderada que ele agiu durante o período que antecedeu o show? A explicação ao meu ver é muito simples. Aceitação pelos seus pares políticos. Inegavelmente, o antissemitismo do novo milênio tem como protagonista o conluio da extrema-esquerda “anti-imperialista” com o pan-jihadismo. A dinâmica de “bullying” com alguma voz dissonante neste meio cada vez mais reacionário é feroz.

Como imagino que o Caetano não seja hipócrita e argentário, creio que ele esteja querendo se desfazer dos milhares de dólares ganhos em uma cidade que ele não voltará nunca mais. Há vários palestinos que vivem abaixo da linha da pobreza contrastando com a pujança da riqueza nababesca dos palácios dos lides da OLP. Uma doação interessante seria para a organização www.saveachildsheartus.org que faz cirurgias de ponta caríssimas em crianças palestinas (e de outros países) com má formações congênitas cardíacas. Com certeza também há outras ONGs e fundações ávidas por recursos.

Ao escrever um texto com uma aderência tão profunda à narrativa anti-israelense, o cantor buscou fazer um “banho ritual” para novamente se “purificar” frente aos consensos da vulga esquerda “anti-imperialista”. Ele entrou nesta “pseudo-mikve” de libelo, de ódio e de reducionismo maniqueísta, almejando remover as marcas de um episódio em que foi extremamente criticado por setores anti-israelenses, incluindo pelos antissemitas corriqueiros do movimento BDS.

É lamentável que uma visão absolutamente distorcida, descontextualizada e alijada de compreensão histórica do conflito Israel-Palestina tenha se tornado a narrativa preferencial da esquerda, outrora tão humanista e tão progressista. Esta narrativa que ataca a legitimidade da autodeterminação judaica tem raízes em uma visão de supremacia e de racismo. Infelizmente, este banho de purificação em águas contaminadas pelo ódio sulfuroso também é realizado por alguns judeus que difamam de forma sagaz e desinformada o Estado de Israel. As explicações das razões são análogas: ganhar dividendos políticos ou buscar uma aceitação pseudo-politicamente correta junto a seus pares.

O show de Caetano e Gil estava lotado de brasileiros. Foi memorável cantar os clássicos com meu filho. O show foi acima de tudo uma vitória rotunda contra o BDS. Isso nenhum artigo em nenhum jornal reverterá. Porém, infelizmente, a reciproca em relação ao Caetano é verdadeira. Apesar de amar a sua música, provavelmente aqueles que estavam no Yad Eliahu em Julho nunca mais voltarão a assisti-lo.

 

Abaixo uma foto de um tweet logo após o show onde saudei o fato deles não terem sucumbido ao efeito manada. A conta oficial do Gilberto Gil curtiu o tweet.

 

tweet

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