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Fabio Lavinsky

As Controvérsias da Nomeação do Embaixador Dani Dayan

27.12.2015

Dificilmente me recordarei de uma questão tão multifacetada e tão complexa como a nomeação do Embaixador Dani Dayan e suas repercussões subsequentes. A sequência de erros, tanto os óbvios, quanto os ocultos, são um caleidoscópio bizarro e lamentável.

Esta coluna, respeitando o seu foco e sua proposta, não poderia se omitir de comentar sobre a questão mais controversa do momento. A questão Dayan foi pauta da reunião do gabinete ministerial do primeiro ministro Binyamin Natanyahu e as frases de efeito de alguns ministros já vieram à tona.

Reitero que as opiniões a seguir são exclusivas do colunista e não representam a opinião oficial nem extraoficial da FIRS.

Há quatro premissas básicas envolvidas:

-A linha ideológica que se reflete na visão geopolítica do governo Dilma. Esta linha milita abertamente contra os assentamentos na Judeia e Samária (Cisjordânia) como parte de uma agenda que pendula entre uma posição pró solução de dois estados e uma posição crassamente antissionista. Este antissionismo é adotado esporadicamente de forma oficial (como no boicote de Lula a visita do tumulo de Hertzl e nas manifestações desinformadas e unilaterais na guerra de Gaza), porém é difundido diuturnamente por via extraoficial via militantes, parlamentares, movimentos “sociais”, sindicatos e alguns políticos. Esta linha é discrepante dos anseios e dos valores de boa parte da população brasileira, que entende e apoia a solução de dois estados para dois povos como mecanismo estabelecedor da paz. Não obstante, e apesar do discurso de alguns, os canais de cooperação e de comercio com Israel se aprofundaram nestes anos de Lula e de Dilma. Inclusive com importantes missões oficiais como a do Ex-Governador Tarso Genro e a do Ex-Ministro da Saúde Alexandre Padilha. Indubitavelmente, e digno de elogio, que o pragmatismo dos resultados positivos dessa relação bilateral se sobressaiu e superou o veneno do discurso de alguns setores mais inflamados da esquerda.

-A linha diplomática do governo Benjamin Natanyahu desde a nomeação de Avigdor Lieberman como ministro do Exterior no mandato anterior mostrava que tereia uma linha dura e mais focada em marcar posição do que em conquistar “corações” mundo a fora. Talvez esta linha seja resultado da leitura de Bibi que vivemos em um mundo em guerra,  em um mundo em que o idioma “força” vai ser a língua universal por um bom tempo. Então, uma diplomacia que não pede “com licença” parece, na visão deste colunista, a linha optada por Bibi. Temos exemplos dessa diplomacia com a nomeação de uma “pedra no sapato de Obama” Ron Dremer para embaixador dos EUA, de Danny Danon para embaixador de Israel na ONU, do acumulo da função de ministro do exterior por parte do Bibi e no episódio do discurso contra o acordo nuclear com o Irã  no Congresso americano.

-A terceira premissa envolvida nesta questão é a liberdade dos países amigos nomearem embaixadores sem ingerência e sem veto. Isto é ainda mais evidente quando este pais é uma democracia com governo eleito democraticamente. Este veto à autonomia de um pais amigo se torna ainda mais condenável quando ele é um fato isolado, uma exceção dentro de um padrão diplomático permissivo e conivente. O Itamarati há anos alavanca negócios que deixam ditaduras e ditadores ricos e prósperos mundo a fora. O Brasil de forma tácita chancela regimes desprovidos de direitos humanos mínimos que oprimem suas mulheres e matam diariamente gays e prisioneiros políticos, como o Irã por exemplo. Não houve nenhum tipo de repudio mais forte ao ditador Bashar Assad (que ganhou das mãos de Lula a comenda de Rio Branco) que é o responsável direto pela morte de mais de 250mil sírios e por mais de 5 Milhões de refugiados (maior crise desde a segunda guerra mundial). Nenhum dos embaixadores destes regimes foram vetados ou constrangidos. A hipocrisia implícita no critério duplo (double standard) da postura diplomática é um fenótipo moral deformado. Desde o tempo em que o Estado Novo flertou com nazifascismo, inclusive mandando Olga Benário (esposa de Luiz Carlos Prestes) para campo de concentração, nunca o Brasil se envolveu com regimes de tamanho impacto nefasto na história da humanidade. Este passivo moral nós carregaremos para sempre ao longo da históra.

-A última premissa é expressa na entrevista do próprio Embaixador Dani Dayan ao jornalista Barak Ravid do jornal Haaretz. Ele crê que está em prova um precedente em relação ao movimento dos colonos da Judéia e Samária. Ele acha que a reação de Bibi em sua defesa é claudicante e fraca, e discrepante em intensidade e em velocidade de quando foram colocados rótulos nos produtos da Judéia e Samária pela União Europeia.

Complicado? Concordo!

Os erros e as controvérsias não terminam por aqui. Um parlamentar brasileiro usou de sua palavra para atacar a nomeação e “aproveitou a oportunidade” para destilar veneno de ódio e de mentiras contra Israel. Por sua vez, judeus de esquerda assinaram uma patética carta contra Dayan que serviu de ferramenta de propaganda para aqueles que querem a deterioração total das relações Brasil-Israel. Muitos também estão tomando posições a favor, inclusive está havendo uma petição eletrônica via Change.

Este tipo de questão (assim como todas as questões diplomáticas e estratégicas) devem ser focadas no resultado e não em marcar posição. Qual é o melhor resultado para o Brasil e para Israel? Obviamente que mais cooperação, mais negócios, mais soluções e mais pareceria. Se por um lado é inaceitável a ingerência brutal, hipócrita e com mau odor ideológico, por outro, era de se esperar que em uma diplomacia de cooperação, e não a diplomacia de musculo como a que ocorre no hemisfério norte, houvesse maior sensibilidade aos vieses. O Embaixador Rada Mansour foi um case positivo do preenchimento do paradigma ganha-ganha nas relações Brasil-Israel.

Dani Dayan definitivamente não pode ser um embaixador do Conselho Yesha (Yehuda e Shomron) no Brasil, se o for com certeza será uma dispersão de foco e um dano desnecessário nas relações bilaterais entre os dois países. Da mesma maneira que é ilegítimo uma nação ingerir na missão diplomática de outro pais, é ilegítimo um embaixador não ser o representante de todos os israelenses. Se Dani Dayan for efetivamente o representante de todos os israelenses, ele saberá deixar em Maale Adumim o “chapéu” de colono e na sua volta dará continuidade as discussões de seu setor.

Porém, a luz do apoio e dos elogios que ele recebeu de indivíduos de todo o espectro político de Israel, incluindo Shely Iahimovitch do Machané Hatzioni (centro-esquerda), com certeza ele será o embaixador de todos os israelenses e saberá dar continuidade e aprimorar o belo trabalho do Emabaixador Rada Mansour. O mais importante para tal é foco total no bom resultado prático das relações bilaterais e ao mesmo tempo se esquivar totalmente de temas relacionados às pautas que defendem o projeto das colônias em Yehuda e Shomron.

Torço para que esta questão se resolva logo. O elo de amizade entre Brasil e Israel é muito maior do que qualquer imbróglio e do que qualquer eventual demagogia dos partidos vigentes lá e cá. Torço para que em breve recebamos com um “Baruch Haba” o futuro Embaixador Dani Dayan e que ele tenha uma performance excepcional.

 

Leitura sugerida: http://www.haaretz.com/israel-news/.premium-1.694107

 

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