*por Nelson Menda
Notícias da Rua Judaica
19.12.2011
Da minha infância, em Porto Alegre, recordo de uma figura bastante popular. Era uma senhora já entrada em anos, com cara e jeito de poucos amigos que circulava pelas ruas da cidade e servia de motivo de chacota para a garotada. Bastava gritar "Osório" para que ela replicasse, em altos brados: "Osório, não. Conceição do Arroio". Na realidade, estava se referindo ao nome da localidade onde nascera e que tivera seu nome trocado, em 1934, de "Conceição do Arroio" para "Osório". Mudança, diga-se de passagem, mais do que justa, pois tivera como objetivo homenagear um dos mais destemidos militares e homens públicos de nosso país, a quem o Brasil muito devia, Manuel Luis Osório, mais conhecido como General Osório.
Manuel Luis Osório
Patrono da Cavalaria Brasileira, Barão, Visconde e Marquês do Erval, Herói das Batalhas do Sarandi, Passo do Rosário, Avaí e Monte Caseros, entre tantas outras e, ao que tudo indica, descendente em linha direta de uma tradicional família açoriana de origem judaica.
MOYSÉS EIZIRIK
O Dr. Moysés Eizirik é um médico porto-alegrense apaixonado por história, especialmente judaica e gaúcha. Pesquisou e escreveu diversas obras sobre o tema, especialmente "Imigrantes Judeus", cujo capítulo inicial é dedicado aos açorianos. Afinal, foram eles os povoadores de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul após a assinatura do Tratado de Madrid de 1750, que definiu os limites da fronteira sul do Brasil.
A VILA DA SERRA
Em sua obra o Dr. Eizirik faz referência ao livro "A Vila da Serra", de Antônio Stenzel Filho, em que o autor descreve costumes fúnebres aparentemente estranhos, onde "os homens compareciam aos sepultamentos com chapéus enterrados na cabeça e os filhos das pessoas falecidas não faziam a barba nem cortavam o cabelo durante um mês". E menciona, especificamente, o caso da viúva Osório, profundamente abalada com a morte do esposo. Vila da Serra era o nome antigo de Conceição do Arroio que, como já vimos, deu lugar ao município de Osório, no litoral gaúcho, terra natal desse grande herói brasileiro.
Casa onde nasceu o General Osório
Diversas famílias assumidamente israelitas radicadas no continente americano ostentam o sobrenome Osório. É bastante provável, portanto, que importante parcela dos primeiros povoadores do Brasil Meridional, especialmente aquela proveniente das ilhas que formam o Arquipélago dos Açores, descendesse de judeus. Dentre elas, os Osório, cujas práticas fúnebres mencionadas na obra de Antonio Stenzel não deixam margens à dúvida.
HERÓI DA BATALHA DE AVAÍ
A vida de Manuel Luis Osório é uma verdadeira epopéia cívico-militar, que se inicia antes mesmo dele completar quinze anos, quando se oferece para lutar ao lado do pai, também militar, na Cavalaria da Legião de São Paulo, que combateu nas Guerras da Independência do Brasil e também na Cisplatina, de 1825 a 1828. Em sua longa e gloriosa carreira Osório participou, sempre com bravura, de diferentes combates, sendo ferido mais de uma vez. A ponto do seu Brasão de Armas ostentar três estrelas douradas, em referência aos ferimentos recebidos nos campos de batalha.
Brasão de Osório
É considerado o Herói da Tríplice Aliança, constituída por Brasil, Argentina e Uruguai e que conseguiu derrotar as forças de Solano Lopez na famosa Batalha do Avaí, em 1868, onde teve o maxilar fraturado por um projétil disparado pelas tropas adversárias.
Batalha do Avaí
Já no Rio de Janeiro, então capital do Império, manteve intensa participação na vida política do país, ao assumir uma cadeira no Senado Federal. Quando faleceu, em 1879, aos 71 anos, exercia a função de Ministro da Guerra. Seus restos mortais foram trasladados, em 1993, para o terreno onde estava localizada a casa em que nasceu, em 10 de maio de 1808, no município que hoje ostenta seu nome e onde foi erguido o Parque Histórico Marechal Manoel Luis Osório.
COMPLEMENTAR AS PESQUISAS
As pesquisas sobre a presença de cristãos-novos e cripto-judeus na composição do povo brasileiro vem revelando, pouco a pouco, aspectos extremamente interessantes sobre o verdadeiro amálgama formador da nossa nacionalidade. Talvez existisse mais de uma família Osório na pequena Vila da Serra. Nesse caso, o Patrono da Cavalaria não pertenceria à família mencionada na obra de Stenzel. Por outro lado, existe uma grande probabilidade do nosso herói descender, efetivamente, de judeus. Torna-se necessário, a partir de indícios relevantes, como os relatados neste texto, aprofundar as pesquisas, para que a história possa refletir a realidade dos fatos, por tanto tempo submersa no secretismo.
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