*por Aron Adler
Nosso Jornal - RJ
13.12.2011
"A carta abaixo nos foi enviada por nosso filho Aron que está prestando seu período de serviço como reservista das Forças de Defesa de Israel na fronteira com o Egito. Pensamos que os fatos aqui relatados podem ser um Kidush Hashem para o mundo. Sintam-se à vontade para repassar esta carta para quem vocês quiserem mandar, inclusive editores de jornais."
Marilyn e Josh Adler
Meu nome é Aron Adler.Tenho 25 anos, nasci no Brooklyn, NY, e fui criado em Efrat Israel. Embora esteja sempre muito ocupado, minha vida não é incomum. A maior parte do tempo sou um cidadão de Israel como todos os outros. Durante o dia trabalho como paramédico no Maguen David Adom, o serviço nacional de saúde israelense. Eu estudo à noite, estou cursando o primeiro ano da faculdade de direito. No mês de outubro passado eu casei e estou começando um novo capítulo da minha vida junto com minha maravilhosa esposa Shulamit.
Todos os anos, por um período de 15-20 dias, sou chamado pelo exército para cumprir com meu dever de reservista. Eu atuo como paramédico numa unidade de paraquedistas. Meu esquadrão é formado por outros reservistas como eu, pessoas que abandonam suas atividades normais para cumprir um dever. O membro mais velho do meu esquadrão tem 58 anos. Ele é casado e tem quatro filhas e duas netas. No nosso esquadrão temos dois banqueiros, um engenheiro, um terapeuta holístico e meu comandante de 24 anos que ainda não decidiu o que vai fazer da sua vida. Durante a maior parte do ano somos apenas pessoas comuns, mas por 15-20 dias nós somos soldados no front, preparando-nos para uma guerra que, esperamos, não aconteça jamais.
Neste ano, nossa unidade foi enviada para a fronteira entre Israel, Egito e a faixa de Gaza, numa área chamada Kerem Shalom. Além das coisas "típicas" do nosso treinamento - guerra, terrorismo, infiltração nas fronteiras, etc. - este ano tivemos de enfrentar um novo desafio: alguns anos atrás, teve início um fluxo de refugiados que atravessa a fronteira do Egito, do Sinai para Israel, à procura de asilo, fugindo das atrocidades em Darfur.
O que começou como um pequeno número de homens, mulheres e crianças que fugiam das machetes dos Janjaweed e dos fundamentalistas violentos à procura de uma vida melhor em outro lugar, tornou-se uma indústria organizada de tráfico de seres humanos. Em troca de grandes somas de dinheiro, algumas vezes as economias de toda uma vida pagas aos "guias" beduínos, estes refugiados recebem a promessa de serem transportados do Sudão, da Eritréia, e de outros países africanos, através do Egito e do deserto do Sinai, até um porto seguro, em Israel.
Nós ouvimos muitas histórias das atrocidades que estes refugiados sofreram no caminho para a liberdade. Eles foram vítimas de extorsão, estupro, assassinato, e mesmo roubo de órgãos, sendo os corpos abandonados para apodrecer no deserto. Se tiverem sorte, após sobreviver a esta terrível experiência cujo prêmio é a liberdade, quando apenas uma cerca de arame farpado os separa de Israel, eles precisam realizar uma corrida final tentando escapar dos tiros dos soldados egípcios estacionados ao longo da fronteira. Os soldados egípcios recebem ordem de atirar para matar qualquer um que tente cruzar a fronteira do Egito para Israel. Este é um fato quase que diário.
Aqueles que conseguem finalmente cruzar a fronteira, as primeiras pessoas que encontram são soldados israelenses, pessoas como eu e meus colegas, cuja tarefa principal é defender a vida do povo de Israel. Em um lado da fronteira os soldados atiram para matar; do outro lado, eles sabem que serão tratados com mais respeito do que em qualquer outro dos países que cruzaram para chegar a este ponto.
Do ponto de vista da segurança, a região onde tudo isto acontece é muito sensível e de alto risco. Ela fica a apenas algumas milhas ao sul do local onde Gilad Shalit foi seqüestrado. Mesmo assim, os soldados israelenses que recebem estes refugiados não o fazem com rifles, mas sim com uma mão amiga e um coração aberto. Os refugiados são levados para uma base militar próxima, recebem roupas limpas, uma bebida quente, comida e atendimento médico. Finalmente, estão salvos.
Embora eu viva em Israel e seja informado pela mídia sobre os fatos que acontecem na fronteira egípcia, eu nunca tive a menor idéia da intensidade e da complexidade do cenário até vivenciá-las pessoalmente.
Durante as últimas noites presenciei muitas ocorrências. Na noite passada, às 9h, recebemos as primeiras informações sobre um tiroteio na fronteira. Poucos minutos depois, patrulhas do exército israelense localizaram pequenos grupos de pessoas tentando atravessar a cerca. No período de uma hora recolhemos treze homens, descalços,desidratados, enregelados, alguns seminús, com os corpos cobertos de lacerações e outros ferimentos. Nós os recolhemos, demos cobertores, chá, e cuidamos das suas feridas.

Eu não falo a língua deles, mas a expressão dos seus rostos dizia tudo, e eu me lembrei, mais uma vez, porque tenho orgulho de ser judeu e israelense. Infelizmente, descobrimos depois, os tiros que ouvimos foram mortais, três refugiados foram atingidos e perderam a vida.
Durante os 350 dias em que não estou cumprindo o meu dever no exército, quando sou apenas um cidadão comum, as pessoas que executam este trabalho surpreendente, são jovens soldados israelenses recém saídos do curso secundário que cumprem seu serviço militar obrigatório, alguns com apenas 18 anos.
Os refugiados que chegam a Israel se constituem num pesado fardo para nosso pequeno país. Mais de 100.000 refugiados já percorreram este caminho e mais algumas centenas cruzam a fronteira todos os meses. Os problemas humanitários, econômicos e sociais criados por este fluxo de refugiados são imensos; as conseqüências para a segurança de Israel são muito sérias, provocando uma crise para a qual o país ainda não conseguiu encontrar uma solução adequada. Israel procura equilibrar suas questões econômicas e sociais e de segurança ao mesmo tempo em que se esforça para cuidar dos refugiados.
Eu não tenho as respostas para estes problemas complexos que precisam desesperadamente ser resolvidos. Não escrevo com a intenção de assumir uma posição política ou tática sobre o assunto.
Estou escrevendo para contar a vocês e ao mundo inteiro o que está realmente acontecendo aqui, na fronteira entre Israel e Egito. E para contar a vocês que, apesar de todos os problemas criados por esta situação, estes refugiados não têm motivos para nos temer. Porque eles sabem, como o mundo inteiro também precisa saber, que Israel não fechou os olhos para o sofrimento e a dor deles. O Estado de Israel deixou a política de lado para seguir o caminho humano e ético, como já fez muitas vezes antes em casos de sofrimento humano e de desastres naturais em várias partes do mundo. Nós judeus conhecemos muito bem o sofrimento e a dor; o povo judeu já passou por isto: já fomos perseguidos e nos tornamos refugiados muitas vezes, há milhares de anos em todo o mundo.
Hoje, quando os refugiados africanos cruzam nossas fronteiras à procura de liberdade e de uma vida melhor, muitos temendo por suas próprias vidas, a maneira como Israel os trata é admirável, apesar da imensa tensão que esta situação provoca em muitos níveis no nosso país.. Nosso povo tão jovem e tão batalhador e nosso país, construído sobre as cinzas do Holocausto, não dá as costas à humanidade. Embora eu já o soubesse, nesta semana eu mais uma vez vivenciei os fatos. Estou profundamente emocionado e muito orgulhoso de ser membro desta nação.
Com amor por Israel,
Aron Adler, na fronteira Israel / Gaza / Egito.