*por Israel Blajberg
29.01.2012
Em ato de grande significado, a Presidente Dilma honrou a comunidade judaica brasileira com sua presença na cerimônia principal do Dia Internacional em Memória das Vitimas do Holocausto.
Procedente de Brasília, de onde partiu as 15h do domingo 29 jan 2012, dirigiu-se diretamente ao Fórum Ruy Barbosa de Salvador, maior cidade negra fora da África, onde permaneceu por 2 horas, encantando o publico com a sua presença marcante e serena, seja cumprimentando a cada orador que se manifestava, seja irradiando uma intensa simpatia que expressava em seus gestos. No dia seguinte segue para Havana, o que demonstra como fez questão de estar presente, inclusive tendo de antecipar de um dia a sua participação, com os convites já impressos e expedidos.
O capital simbólico da presença judaica na Bahia, e ademais em todo o Brasil, foi justamente mencionado pela Presidenta em seu discurso de 20 minutos, varias vezes entrecortado pelas palmas da platéia, no grande auditório do Fórum, totalmente tomado por mais de 600 convidados.
Fórum em cujo sub-solo se situa a cripta do ilustre bahiano Ruy Barbosa, abolicionista, o Águia de Haia.
Salvador, para onde aportaram milhões de escravos, que ajudaram a fazer deste pais uma grande nação. Bahia, onde em 1500 aportaram as caravelas, dentre cujos marinheiros quantos não teriam pronunciado uma suplica a Virgem Santíssima, ao partir?
Possivelmente não poucos murmuraram discretamente na pequena capela as margens do Tejo, o Shema Israel... sem que nenhum outro escutasse...
Como mencionou a própria Presidenta em suas tocantes palavras, uma parte dos portugueses que aqui chegaram era de cristãos-novos, e o Brasil também foi fruto destes, assim como de judeus que escaparam dos horrores da Europa.
Certamente, se hoje falamos português, muito devemos aos judeus que ajudaram a criar a Escola de Sagres, desenvolveram o astrolábio, e desenharam as primeiras cartas náuticas, designadas por uma palavra hebraica - mapah, viabilizando as navegações.
Não muito distante do Fórum, na encosta da orla situa-se o antigo Cemitério dos Ingleses, onde boa parte das sepulturas que pontilha a encosta diante das águas da Bahia e' de judeus, que ali tiveram o seu ultimo repouso ate que mais recentemente um cemitério próprio foi construído na Quinta dos Lázaros.
Mais um pouco a frente, próximo ao Farol da Barra, uma casa ostenta um candelabro a entrada. Nada menos que o Beit Chabad, onde um jovem rabino vindo de Israel divulga a mensagem do Rebe de Lubavitch na Bahia, terra das Orixás. Terra que já teve um prefeito judeu em Salvador, e o atual governador já em seu segundo mandato.
Na terra do Olodum e do Carnaval, magnífico coral cantou para a Presidenta o Hino dos Partisans e uma canção africana, irmanando dois povos que sofreram juntos, seja nos navios-negreiros, seja nos trens do holocausto, e que hoje continuam lado a lado nesta terra abençoada trabalhando pelo desenvolvimento do Brasil.
Nada mais significativo do que a comunhão de idéias, o Babalaô, o Cardeal Primaz e o Rabino juntos, ouvindo o Yizkor e o El Maleh Rahamin, seguido pelo lamento pungente do shofar, em elegia a bendita memória dos que tombaram, seguindo-se o acendimento em coletivo das 6 velas, por um grupo de sobreviventes, seguindo-se os Ministros, General Jose Elito, Luiza Bairros, da Igualdade Racial e Maria do Rosário, da SEPPIR, outro grupo formado pelo ativista dos direitos homossexuais Luiz Mott, a OAB e os Bahai, mais uma vela acesa pela Desembargadora Presidente do Tribunal, outra pelo representante da ONU, e mais outra pelo Presidente da CONIB, que convida Dilma para acompanhá-lo.
O Professor Luis Edmundo da UFRRJ relata o destino de 20 mil negros alemães, também eles vitimas do holocausto, alguns cujos pais eram soldados coloniais casados com alemãs, e foram das primeiras vitimas.
Como bem descreveu a Presidenta Dilma, somos uma nação pluralista e de princípios, e devemos manter acesa a chama desta memória, ajudando assim a construir um mundo melhor, sem discriminação e com mais tolerância. A Presidenta referiu-se positivamente ao novo centro cultural que a Sociedade Israelita da Bahia vem construindo, que será um local de estudos, dentro da idéia de que a diversidade cultural estimula e aproxima os diversos componentes da sociedade.
Este evento foi verdadeiramente um marco grandioso nas relações entre as diferentes comunidades componentes da nossa sociedade verde-e-amarela. As vésperas do 2 de fevereiro - Dia de Iemanjá', sob as bênçãos da Rainha do Mar a Bahia segue seu caminho, o mesmo dos judeus brasileiros, e de tantas comunidades, sejam elas negra, bahai, católica, evangélica, espírita, do candomblé, enfim, também aqui os ensinamentos da Tora' nos acompanham e orientam.
Shalom !! Axé !!
* Israel Blajberg é veterano da FEB, sócio-titular do Instituto de Geografia e Historia Militar do Brasil (IGHMB) e membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil - AHIMTB.