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Rafael Bán Jacobsen

Físico, músico, escritor e judeu (não necessariamente nessa ordem). Mais jovem membro da Academia Rio-Grandense de Letras (imortal, porém morrível, portanto). Autor dos livros "Solenar" e "Uma leve simetria", também edito a revista de estudos judaicos WebMosaica. Neste espaço, escreverei sobre as três coisas que mais me fascinam: arte, filosofia e judaísmo.

A yiddishkeit de Leopold Bloom

08.02.2016

Bloom

Caricatura de Leopold Bloom feita por James Joyce

 

Nesta primeira semana de fevereiro, mais precisamente no dia 02, recordamos os 134 anos de nascimento do escritor irlandês James Joyce (Dublin, 2 de fevereiro de 1882 — Zurique, 13 de janeiro de 1941), cujo romance “Ulisses”, publicado em 1922, é considerado uma das obras-primas da literatura universal.

“Ulisses” é um livro longo, caudaloso, com mais 260.000 palavras na versão original, abarcando um léxico de mais de 30.000 vocábulos (e um grande número de neologismos), repleto de experimentações narrativas, de trocadilhos, de referências populares e eruditas. Essas características tornam sua leitura um grande desafio, e Joyce tinha consciência disso. Chegou a afirmar certa vez: “A única exigência que faço aos meus leitores é que devem dedicar as suas vidas à leitura das minhas obras.” Assim, “Ulisses” inclui-se no rol daqueles livros muito mais comentados e debatidos do que efetivamente lidos.

Mesmo assim, as linhas gerais do seu enredo são bem conhecidas. “Ulisses” narra as andanças e encontros de um vendedor de anúncios de ascendência judaica chamado Leopold Bloom em Dublin no curso de um dia comum, 16 de junho de 1904. Ele é casado com Molly Bloom, uma cantora lírica, e, nesse dia, acaba conhecendo Stephen Dedalus, jovem professor com pendores literários. O romance, dividido em 18 episódios (ou capítulos), ampara-se na recriação da estrutura e dos eventos contados na “Odisseia”, de Homero, conectando as experiências de Leopold Bloom e Ulisses, de Molly Bloom e Penélope, e de Stephen Dedalus e Telêmaco. Um bom resumo do arco narrativo é dado pelo crítico Edmund Wilson, na resenha que escreveu para a revista “The New Republic” em 05 de julho de 1922:

Em 16 de junho de 1904, Stephen Dedalus e Leopold Bloom viviam em Dublin. Ambos diferem das pessoas ao redor deles e caminham em isolamento entre elas, porque cada um deles é, de acordo com sua capacidade, um intelectual aventureiro – Dedalus, o poeta e filósofo, com uma mente cheia de belas imagens e especulações abstrusas, e Bloom, o negociador de anúncios, de uma forma mais rudimentar. À noite, o Sr. Bloom e Dedalus se juntam à mesma festa de bebedeira, e Dedalus é nocauteado em uma briga com um soldado britânico. Então, a ligação entre eles se torna clara. Bloom sente melancolicamente que Stephen era tudo que ele teria tido de um filho próprio, e Stephen, que desprezava o próprio pai – um amável perdulário –, encontra uma espécie de pai espiritual neste judeu simpático, que, medíocre como era, tinha pelo menos a dignidade da inteligência.

Entre 1904 e 1915, James Joyce morou diversas vezes em Trieste, na Itália, onde trabalhou como professor. Um de seus alunos na cidade foi Aron Ettore Schmitz, que ficaria mais conhecido pelo pseudônimo de Italo Svevo, futuro autor de “A consciência de Zeno”. Eles se conheceram em 1907 e tornaram-se amigos. Schmitz era um católico de origem judaica e tornou-se o modelo preliminar para Leopold Bloom. A maioria dos detalhes sobre o judaísmo presentes em “Ulisses” vieram das respostas dadas por Schmitz às consultas que Joyce lhe fazia sobre o tema.

Em “Ulisses”, há mais de duzentas referências judaicas (aproximadamente o dobro das alusões a imagens católicas), quase todas conectadas a Leopold Bloom. Algumas vezes, as referências judaicas e cristão surgem amalgamadas, orbitando a figura de Bloom, como no seguinte trecho do capítulo 15 (“Circe”), no qual aparecem, justapostas, as crenças messiânicas do judaísmo e do cristianismo (a última quando Bloom, em sua fala, repete a resposta que Jesus deu a Pilatos ao ser indagado se era o “rei dos judeus”):

UMA VOZ

Bloom, você é o Messias ben José ou ben David?

BLOOM

(obscuramente) Você o disse. (p. 528) *

Ainda que de forma fragmentada, a narrativa nos dá a conhecer um pouco da história familiar de Leopold: nascido em 1866, é o único filho de Rudolf Virág (um judeu húngaro de Szombathely que emigrou para a Irlanda, converteu-se ao protestantismo, mudou seu nome para Rudolph Bloom e depois se suicidou), e de Ellen Higgins, uma protestante irlandesa, filha de pai judeu e mãe protestante; Bloom, por sua vez, converteu-se ao catolicismo para casar com Marion (Molly) Tweedy em 1888; o casal tem uma filha, Millicent (Milly), nascida em 1889; seu filho Rudolph (Rudy), nascido em 1893, morreu depois de onze dias. Portanto, de acordo com a halachah, ainda que Leopold seja três quartos judeu, ele carece daquele exato um quarto que o tornaria “judeu de acordo com a lei”: falta-lhe a transmissão da linhagem pelo ventre materno. Por outro lado, Molly Bloom é judia, sem qualquer sombra de dúvida: sua mãe, Lunita Laredo, descendia de uma antiga família sefaradita de Gibraltar; porém, criado pelo seu pai católico, Molly acabou por perder o interesse por essas duas heranças religiosas. Isso significa que, do ponto de vista haláchico, os filhos de Leopold e Molly – Milly e o falecido Rudy – são judeus.

Curiosamente, ainda que não seja judeu de acordo com as leis religiosas, Leopold Bloom é considerado judeu pelos outros e, de fato, chega a ser alvo de ofensas antissemitas. No capítulo 12 (“Ciclopes”), Bloom entra em um pub e lá encontra uma personagem chamada simplesmente de “o cidadão”, um defensor do estabelecimento da República Independente da Irlanda e rematado antissemita: “Um lobo em pele de cordeiro – diz o cidadão. – Isso é o que ele é. Virag da Hungria! Ahasverus é como o chamo. Amaldiçoado por Deus.” (p. 371) Em defesa, Bloom lembra ao cidadão que Jesus era também judeu:

E diz ele [Bloom]:

– Mendelssohn era um judeu e Karl Marx e Mercadante e Espinoza. E o Salvador era um judeu e seu pai era um judeu. O seu Deus.

(…)

– Deus de quem? – diz o cidadão.

– Bem, seu tio era judeu – diz ele. – Seu Deus era um judeu. Cristo era um judeu como eu. (p. 375)

Quando Bloom deixa o pub, o cidadão, com raiva, joga uma lata de biscoitos na cabeça dele, mas erra. Mais tarde, no capítulo 16 (“Eumaeus”), Leopold contará o acontecido a Stephen Dedalus, que recém havia conhecido:

Ele me chamou de judeu de uma maneira ofensivamente acalorada. Então sem me desviar nem um pouco de simples fatos eu lhe disse que o seu Deus, quero dizer Cristo, também era um judeu como eu assim como toda a sua família embora eu na realidade não seja. Essa foi uma vitória sobre ele. Uma resposta branda afasta a cólera. (p. 665)

Contrapondo as duas passagens, vê-se que Bloom percebe-se judeu, ainda que, às vezes, ele negue isso, talvez ciente das restrições da halachah. Mais do que tudo, Bloom sente-se um estrangeiro entre gentios – sempre tende a enxergar os católicos como “eles”, os “outros”, e, desse modo, acabamos pensando nele como um judeu. Logo no início do livro, Leopold entra na Igreja de Todos os Santos e é dominado por um grande estranhamento perante os ritos católicos. Ao ver mulheres comungando, ele se sente alheio à cena e, numa tentativa de traduzir o que vê para uma realidade mais próxima de si, Bloom chega a comparar as hóstias com “mazzoth”, o pão não fermentado que os judeus consomem na festividade de Pessach:

O padre passou por elas, murmurando segurando a coisa em suas mãos. Parou em cada uma, tirou uma comunhão, sacudiu uma gota ou duas (elas estão na água?) e a pôs com precisão em sua boca. O chapéu e a cabeça dela baixaram. Então a próxima. Seu chapéu baixou imediatamente. Em seguida, a próxima: uma mulher velha e pequena. O padre se inclinou para pôr em sua boca, murmurando o tempo todo. Latim. A próxima. Feche seus olhos e abra a boca. O quê? Corpus: corpo. Cadáver. Boa ideia o latim. Entorpece-as primeiro. Asilo para os moribundos. Elas não parecem mastigá-la: apenas engoli-la. Ideia estranha: comendo pedacinhos de um cadáver. Ora os canibais concordam com isso.

(…) Elas estavam à volta dele aqui e ali, com as cabeças ainda inclinadas em suas fitas carmesins, esperando que ela derretesse em seus estômagos. Uma coisa assim como aquele mazzoth: é aquela espécie de pão: pão ázimo para proposição. (p.92-93)

Em seu artigo “O maior de todos os judeus: James Joyce, Leopold Bloom e o arquétipo modernista”, publicado no periódico “Papers on Joyce” (10/11; 2004-2005), Morton Levitt observou que talvez a maior surpresa em “Ulisses” seja que “as imagens judaicas não são tangenciais no romance, mas centrais, fornecendo o seu padrão prevalente e, com certeza, mais importante: não são o mito e a metáfora de Homero que fornecem a chave para ‘Ulisses’, mas sim aqueles do judaísmo, na medida que Joyce compreendia sua relevância no mundo moderno”. Esta é uma das fantásticas ironias joyceanas: o grande personagem judeu do seu grande romance não é, do ponto de vista ortodoxo, um verdadeiro judeu; mesmo assim, sente-se judeu, é visto como judeu e serve de fulcro para apoiar e alavancar todas as referências ao judaísmo, que são espinha dorsal da obra.

E há uma ironia adicional: essas referências, que surgem na mente de Bloom ao longo do dia, são sempre incompletas ou mesmo incorretas. Um exemplo bastante representativo por ser lido no capítulo 15 (“Circe”), no momento em que Bloom recita solenemente uma lista de palavras que sintetizam o seu conhecimento sobre judaísmo: “Aleph Beth Gimel Daleth Hagadah Tephilim Kosher Yom Kippur Hanukah Roschaschana Beni Brith Bar Mitzwah Mazzoth Askenazim Meshuggah Talith.” (p. 521)

A respeito dessa passagem, escreve Morton Levitt:

Essa idiossincrática combinação – de letras do alfabeto, de feriados religiosos e de práticas, fraternidades, costumes dietéticos e grupos culturais, gírias pejorativas, com escritas e pronúncias incorretas – parece ser toda a yiddishkeit que Bloom conseguiu reter na sua vida em meio aos gentios.

No capítulo 7 (“Aeolus”), surge uma das mais significativas reminiscências da vida judaica de Bloom. Ao observar o trabalho de um linotipista, que distribui os tipos de trás para diante, ele se lembra do pai, Rudolf Virág, lendo a Hagadah nas noites de Pessach:

Pobre papai com seu livro Hagadah, lendo para mim de trás para diante, com seu dedo. Pessach. O ano que vem em Jerusalém. Céus, Ó céus! Toda essa longa história de que nos tirou das terras do Egito para a casa da servidão aleluia. Shema Israel Adonai Elohenu. Não, essa é a outra. Então os doze irmãos, filhos de Jacó. E então a ovelha e o gato e o cachorro e o bastão e a água e o açougueiro. E então o anjo da morte mata o açougueiro e ele mata o boi e o cachorro mata o gato. Soa um pouco tolo até que seja examinado. Isso quer dizer justiça mas são todos comendo uns aos outros. Isso é o que é a vida afinal de contas. (p. 141)

Aqui, temos um exemplo das referências judaicas confusas e incompletas que sobrevivem na psique de Bloom: mesclam-se a profissão de fé central do judaísmo (Shema Israel), a Hagadah de Pessach e pedaços de Chad gadya (“Uma pequena cabra”), canção jocosa e cumulativa (similar à clássica “A velha a fiar” do Brasil) que se costuma cantar no encerramento do jantar de Pessach. Além disso, é particularmente digno de nota que Leopold Bloom se esquece do final do Shema Israel, omitindo a importante frase Adonai Echad (“O Eterno é Um”). Em vez dela, Bloom pensa “that’s the other” (“essa é a outra”, na tradução), o que tem duplo significado: Leopold pode estar apenas se corrigindo mentalmente, dizendo para si que o Shema ali não cabe, que não consta da Hagadah, que se trata de outra prece; porém, ao pensar tais palavras, ele está também anulando a própria essência do Shema, que é afirmar a unicidade de Deus, pois completa a reza insinuando que Deus “é o outro” (os sábios da tradição judaica já alertaram para o fato de que o Shema deve ser pronunciado cuidadosamente, sílaba por sílaba, com boa dicção, para que a conclusão “Adonai Echad” não se confunda aos ouvidos com “Adonai acher”, isto é, “O Eterno é outro”, o que deixaria subentendida a existência de mais de um Deus). Aliás, o simples fato de o pensamento de Bloom destacar que o pai fazia a leitura “de trás para diante, com seu dedo” (e não “lendo com seu dedo para trás para mim”, como bizarramente traduziu Antônio Houaiss) denota certo estranhamento com as tradições dos judeus; de fato, um judeu que vivesse imerso em uma comunidade praticante da religião jamais assinalaria o sentido em que é feita a leitura de um texto em hebraico, tão corriqueiro que isso seria para ele.

Resta claro que Leopold Bloom não é um judeu que conheça profundamente a cultura judaica e, menos ainda, que se preocupe em seguir os mandamentos da Torá. Além da incorreção e da incompletude das referências judaicas que pipocam na mente de Bloom ao longo do dia, outro marcador utilizado por Joyce para estabelecer a distância entre a yiddishkeit de Bloom e a ortodoxia é a recorrente violação que a personagem faz do kashrut – as leis dietéticas judaicas.

Leopold Bloom é apresentado ao leitor no início do capítulo 4 (“Calipso”), na cena em que prepara seu café da manhã.

O Sr. Leopold Bloom comia com prazer os órgãos internos de aves e de outros animais. Ele gostava de uma sopa grossa de miúdos de aves, moela com nozes, um coração recheado assado, fatias de fígado fritas à milanesa, ovas de bacalhau tostadas. Mais do que tudo ele gostava de rins de carneiro grelhados que davam ao seu paladar um sabor refinado de urina ligeiramente perfumada. (…)

Os carvões estavam avermelhando.

Uma outra fatia de pão com manteiga: três, quatro: certo. (…)

A gata andou toda esticada com a cauda erguida em volta das pernas da mesa.

– Minhau.

– Ah, você está aí – disse o Sr. Bloom, se virando de costas para o fogo. (…)

Em seguida ele foi até o aparador, pegou a jarra que o leiteiro Hanlon acabara de encher para ele, derramou leite quente e espumoso em um pires que pôs lentamente no chão.

– Grru! – ela gritou, correndo para lamber. (…)

Quinta-feira: um dia nada bom para rim de carneiro do Buckley. Frito na manteiga, com um pouco de pimenta. Melhor um rim de porco do Dlugacz. (p. 65-66)

Ainda que miúdos (órgãos internos de animais) possam ser kasher, dependendo de qual animal provêm e de como foram preparados, Bloom manifesta sua predileção por rim de porco, um animal considerado impuro, conforme Levíticos 11:7-8 (“Também o porco, porque tem unhas fendidas, e a fenda das unhas se divide em duas, mas não rumina; este vos será imundo. Das suas carnes não comereis, nem tocareis nos seus cadáveres; estes vos serão imundos”) e Deuteronômio 14:8 (“Nem o porco, porque tem unha fendida, mas não rumina; imundo vos será; não comereis da carne destes, e não tocareis nos seus cadáveres”); além disso, Bloom manipula, ao mesmo tempo, em sua cozinha, carne e laticínios, violando um dos mais importantes das leis dietéticas, cuja origem se encontra em Êxodo 23:19, Êxodo 34:26 e Deuteronômio 14:21 (versículos nos quais se lê a interdição “não cozinharás o cabrito no leite de sua mãe”).

Com efeito, logo em seguida, Bloom vai até o açougue de Dlugacz; lá, regozija-se com o cheiro de sangue no ar e compra o último rim suíno disponível:

Rolos reluzentes, abarrotados de recheio de carne moída, alimentavam seu olhar e ele inspirava tranquilinho a exalação tépida de sangue de porco condimentado, cozido.

Um rim vertia gotas-de-sangue na travessa decorada de ramos de salgueiro: o último. (p. 69)

A proibição de se ingerir sangue, expressa em Deuteronômio 12:23 (“Tão-somente guarda-te de comeres o sangue; pois o sangue é a vida; pelo que não comerás a vida com a carne”), é aqui claramente desobedecida por Leopold Bloom. A ironia final da cena se constrói quando, ao voltar para casa com a carne recém-comprada, ele percebe um comportamento “ortodoxo” em sua gata:

Enquanto desembrulhava o rim a gata miava faminta enroscada nele. Dê carne demais e ela não caçará ratos. Dizem que eles não comem carne de porco. Kosher. Aqui. Ele deixou que o papel lambuzado de sangue caísse para ela e jogou o rim no molho crepitante de manteiga. (p. 72)

No entanto, Bloom não sai ileso do paradoxo que vivencia, sentindo-se judeu e, ao mesmo tempo, muitas vezes, infringindo os mandamentos que pesam sobre um verdadeiro filho de Israel. Naquela noite de 16 de junho de 1904, já tarde, ao retornar para casa, Leopold é novamente assaltado pela lembrança de seu pai ao encontrar objetos dele em uma gaveta. Ele então experimenta certo remorso por não ter respeitado mais a sua herança judaica:

Que outros objetos relativos a Rudolph Bloom (nascido Virag) estavam na segunda gaveta?

Um daguerreotipo indistinto de Rudolf Virag e seu pai Leopold Virag tirado no ano 1852 no salão de fotografia de seu primo (…). Um livro antigo Haggadah no qual um par de óculos convexos com armação de chifre marcava a passagem da ação de graças nas orações rituais para o Pessach (Páscoa): (…) um envelope endereçado: Ao Meu Querido Filho Leopold.

(…)

Por que Bloom experimentou um sentimento de remorso?

Porque com impaciência imatura tratara com desrespeito certas crenças e práticas.

Tais como?

A proibição do uso de carne e leite na mesma refeição: o simpósio hebdomadário de ex-correligionários e ex-compatriotas descoordenadamente abstratos, ardorosamente concretos e mercantis: a circuncisão dos bebês machos: o caráter sobrenatural da escritura judaica: a inefabilidade do tetragrama: a santidade do sabá. (p. 748-749)

Talvez o verdadeiro remorso de Leopold Bloom não se deva tanto à sua própria herança perdida, mas sim à sua impossibilidade (ou incapacidade) de passá-la adiante para seus descendentes, ainda que de forma imperfeita, incompleta, contaminada pela intensa imersão no mundo dos gentios. Em nenhum momento, ele pensa em sua filha Milly como alguém a quem poderia transmitir o seu judaísmo; no pensamento de Bloom, apenas o filho Rudy poderia ser o depositário – e assim aconteceria, caso a morte não o tivesse levado precocemente. Qual o motivo para essa postura de Bloom? O livro não fornece respostas, mas abre espaço para especulações. Uma resposta plausível é que, no íntimo, Leopold deseja reproduzir com seu filho a experiência vivida com o próprio pai, talvez como forma de amenizar a culpa que, mais ou menos consciente, sempre resta àqueles que precisam conviver com a lembrança do suicídio de alguém próximo.

De fato, a perda de Rudy é uma das memórias mais dolorosas de Bloom – e a medida da pungência é dada pelo número de vezes que a imagem do filho morto brota na mente de Leopold ao longo deste único dia durante o qual temos acesso aos seus pensamentos. No capítulo 14 (“Os Bois do Sol”), está uma das mais contundentes alusões:

Não, Leopold. Nem o nome nem a lembrança te confortam. Essa ilusão juvenil de tua força foi de ti retirada – e em vão. Não tens junto de ti nenhum filho de tuas entranhas. Não há ninguém agora que seja para Leopold o que Leopold foi para Rudolph. (p. 454)

Outro trecho em que Rudy surge, quase como um fantasma a assombrar seu pai, está no final do capítulo seguinte (“Circe”), em meio à algazarra do bordel em que Bloom e Stephen Dedalus se encontram:

(Silencioso, pensativo, alerta ele fica de guarda, os dedos nos lábios na atitude de mestre secreto. De encontro ao muro escuro uma figura aparece lentamente, um menino encantado de onze anos, uma criança trocada ao nascer, raptado, vestido com um terno de Eton com sapatos de vidro e um pequeno elmo de bronze, segurando um livro em sua mão. Ele lê da direita para a esquerda inaudivelmente, sorrindo, beijando a página.)

BLOOM

(maravilhado, chama inaudivelmente) Rudy! (p. 629)

Na visão de Bloom, o filho morto aparece lendo em hebraico (da direita para a esquerda), rezando, quiçá no início dos estudo preparatório para seu Bar Mitzvah; assim, no plano do sonho (ou da imaginação, ou do delírio), Leopold vê se realizar o seu recôndito desejo de um filho que recebesse o legado de seu judaísmo.

Como bem assinalou a crítica, Leopold Bloom e Stephen Dedalus, ao se encontrarem na noite de 16 de junho de 1904, estabelecem uma conexão que remete a um relacionamento de pai e filho, ainda que fortuitamente.

Depois da confusão no bordel, Bloom retorna para casa acompanhado de Stephen Dedalus. O capítulo 17 (“Ítaca”) se inicia nesse ponto, com os dois homens buscando se comunicar, estabelecer algum vínculo. Perpassam diversos assuntos na tentativa de comparar seus interesses: literatura, ciência, religião, música.

Em dado momento, Stephen e Leopold escrevem as letras dos alfabetos gaélico e hebraico num esforço para descobrir similaridades entre as antigas línguas irlandesa e hebraica. Então, seguem comparando a história dos irlandeses e dos judeus, as tribulações enfrentadas por cada um desses povos e suas chances de um dia viverem em independência e liberdade. Com o propósito de se fazer conhecer ao novo interlocutor e instigado por essa conversa, Bloom canta o hino sionista Hatikvah (que viria a ser adotado como hino nacional de Israel); todavia – como não poderia deixar de ser –, ele o faz de modo falho:

Que antífona cantou Bloom parcialmente em antecipação dessa consumação múltipla etnicamente irredutível?

Kolod balejwaw pnimah

Nefesch jehudi, homijah.

Por que o canto foi interrompido no final do primeiro dístico?

Em consequência de uma mnemotécnica defeituosa.

Como o cantor compensou esta deficiência?

Por meio de uma versão perifrásica do texto original. (p. 713-714)

Ao combinar as aspirações de judeus e irlandeses, Bloom espera, de algum modo, combinar seu futuro com o de Stephen. O hino entoado se torna a expressão de Leopold para seu desejo de ser a figura paterna que o jovem interlocutor vinha buscando: “Ele [Bloom] viu numa vivaz figura juvenil viril a predestinação de um futuro”. (p. 714) Em resposta, Stephen canta uma popular canção antissemita, “O Pequeno Harry Hughes”, que fala sobre um menino cristão que é assassinado por uma moça judia em um libelo de sangue:

Então apareceu a filha do judeu

Que, vestida de verde, assim falou:

“Volta aqui, menino lindinho,

E joga mais um pouquinho.”

(…)

Ela pegou na mão branca do menino

E foi com ele pelo corredor

Até um quarto fechado

De onde não se ouvia seu clamor.

 

Aí tirando um canivete do bolso

Cortou o pequenino pescoço. (…) (p. 716)

Em seu livro “Alusões Musicais nas Obras de James Joyce”, Zack R. Bowen observa que, em “Ulisses”, o autor apresenta uma versão reduzida dessa balada. Em sua versão completa, aprendemos que o pequeno Harry é atraído para a casa dos judeus com a promessa de guloseimas: um figo, uma cereja “vermelha como sangue”, doces. Há um paralelo inquietante: tal qual Harry, Stephen também foi levado à casa dos Bloom com a perspectiva de experimentar bons momentos, mas ele, ao contrário de Harry, não se deixará seduzir por hospitalidade e chocolate quente. Stephen sabe que não pode haver nada de permanente na conexão entre ele e Bloom e, talvez reconhecendo a manifestação de sentimentos paternais em seu anfitrião, trata de rejeitar essas inclinações ao cantar uma música carregada de preconceito com os judeus. Pouco depois, vai embora, e a separação entre eles é demarcada por uma instigante pergunta do narrador: “Como o centrípeto que permanecia permitiu o egresso do centrífugo que partia?” (p. 728)

E assim a odisseia de Leopold Bloom em 16 de junho de 1904 se encaminha para seu epílogo, num percurso cujo progresso é sempre balizado por referências judaicas. Nas palavras de Morton Levitt:

(…) por causa de James Joyce e Leopold Bloom, o padrão oitocentista, no qual personagens judeus apareciam nos romances majoritariamente como estereótipos, alterou-se enfática e produtivamente. No romance modernista, o judeu se tornou figura primordial de possibilidades. E, em todo aspecto cultural que importa – se não legalmente –, James Joyce, em “Ulisses”, é certamente um escritor judeu.

E assim é: sob o poder da linguagem, do símbolo e do mito, a figura do judeu na arte literária foi recriada à perfeição em Leopold Bloom, e James Joyce, por sua vez, a partir do imperfeito judeu Leopold Bloom, recriou a arte literária.

 

NOTA

* Todos os trechos de “Ulisses” citados no texto foram extraídos da tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro: JOYCE, James. Ulisses. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.

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