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Rafael Bán Jacobsen

Físico, músico, escritor e judeu (não necessariamente nessa ordem). Mais jovem membro da Academia Rio-Grandense de Letras (imortal, porém morrível, portanto). Autor dos livros "Solenar" e "Uma leve simetria", também edito a revista de estudos judaicos WebMosaica. Neste espaço, escreverei sobre as três coisas que mais me fascinam: arte, filosofia e judaísmo.

A arte dos começos

09.12.2015

Recorte da obra "Un punto en el espacio", de Mirta Kupferminc

Recorte da obra “Un punto en el espacio”, de Mirta Kupferminc

No judaísmo, muitas coisas não são o que aparentam. Os três andarilhos que Abraão acolheu em sua tenda não eram homens, mas sim anjos; a sarça que ardeu sem se queimar diante de Moisés não era uma planta, mas sim o próprio espírito de Deus. Da mesma forma, um começo quase nunca é um começo de verdade. Em Bereshit, o livro de Gênesis, quando lemos que “no princípio Deus criou os céus e a terra”, não estamos realmente diante de um evento inicial, pois, antes mesmo de o universo nascer, muito já existia.

Apenas para ficar com uma parte da história, lembremos o que nos ensina a mística judaica: nosso mundo concreto, formado por tudo o que vemos e tocamos, é apenas uma manifestação da mais inferior emanação de Deus; ou seja, para além do que denominamos cosmo, há dez outras esferas que pertencem ao domínio do transcendental – as dez sefirot, dimensões metafísicas por meio das quais Adonai levou a cabo sua criação e continuamente a transforma. Como já diria Chico Buarque, pensando cabalisticamente sem sequer sabê-lo, “além das cortinas, são palcos azuis e infinitas cortinas com palcos atrás”.

Esse fato está por trás de uma das mais interessantes perguntas a respeito do simbolismo que existe em cada linha da nossa Torá: por que o texto se inicia com beit e não com alef, se ela é a primeira letra do alfabeto hebraico? A minha resposta predileta para essa dúvida extrapola a dimensão textual e surge de considerações sobre design: observando o formato da letra beit, vemos que, de um lado ela é toda fechada; do outro, há uma abertura para a parte que é seguida pelo texto. Isso indica uma barreira a nos separar do que, porventura, vem antes de bereshit; podemos conhecer apenas o que veio depois e está escrito na Torá – há elementos anteriores, mas que permanecem ocultos para nós.

Em última análise, todo começo nada mais é do que um ponto no espaço e no tempo, um ponto selecionado de modo mais ou menos arbitrário e que, inevitavelmente, deixa de lado as incontáveis possibilidades representadas por todos os outros pontos não escolhidos. Talvez por isso o começo seja uma das etapas mais difíceis em qualquer processo de criação – trata-se de renunciar a miríades de universos para trazer à luz um pequeno mundo.

Este texto é também um começo – falso, como todo começo. Não é meu primeiro texto, não é meu primeiro texto sobre temas judaicos, não é meu primeiro texto sobre temas judaicos e escrito pensando em um leitor judeu. Apesar disso, inaugura uma travessia ao longo da qual poderei, mais uma vez, brincar de criador e amalgamar arte, religião e filosofia para perseguir aquela que, no dizer de Guimarães Rosa, é a única questão verdadeiramente importante: saber se Deus existe ou não. Com certeza, muito restará oculto; porém, grandiosa será qualquer descoberta que iluminar o caminho, diluindo aparências para revelar o que me for concedido compreender, nem que seja um pouco mais a respeito de mim mesmo.

 

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