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‘Mein Kampf’ volta às livrarias de todo o Mundo

13.01.2016

A obra panfletária do Nazismo, de autoria de Adolf Hitler, intitulada  “Mein Kampf” (Minha Luta) passou a ser, desde o dia 1 de janeiro de 2016, livremente reeditada em todo o mundo, uma perspectiva que está causando preocupação na Europa e em diversos países do Ocidente, inclusive no Brasil, 70 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Os direitos autorais do livro, antigamente em posse do Governo da Baviera, passaram para domínio público, tornando-se assim propriedade de toda a humanidade e, portanto,  liberado para reedições.

Uma das mais controversas obras da história do Ocidente, o único livro escrito pelo ditador nazista – que o ditou o texto a seu fiel secretário, Rudolf Hess, em 1923, na prisão de Landsberg,  onde cumpria uma pena de prisão de cinco anos por traição, após a tentativa de golpe em Munique – contém versões falaciosas de interpretação da História além de ser um manifesto antissemita e um instrumento de incitação do ódio racial também contra negros, ciganos, homossexuais, deficientes físicos e outros grupos minoritários da sociedade européia.

No ano do seu lançamento, em 1925, Mein Kampf vendeu 9473 exemplares, número que foi descendo muito nos três anos seguintes. Só a partir de 1929 as vendas começaram a subir. O grande salto – para o milhão de exemplares – aconteceu em 1933, o ano em que Hitler se tornou chanceler, etapa fundamental da sua marcha de supremacia individual, numa escalada que fez com que em 1940 a sua autobiografia doutrinária fosse de quase leitura obrigatória, vendendo seis milhões de exemplares.

Após a guerra, durante sete décadas diversos países, incluindo a Alemanha, recusaram ou proibiram  a republicação do livro por respeito às vítimas dos do Holocasuto e para impedir qualquer incitamento da ideologia nazista,  embora a posse e a venda da obra não fossem penalizadas pela lei alemã, existindo mesmo exemplares em bibliotecas universitárias. No campo da internet, não é difícil conseguir uma versão digital da obra.

Segundo John Murphy, produtor do programa Publish or Burn (“Publicar ou queimar”, em tradução livre), o livro ainda é um texto perigoso. “A história de Hitler é uma história de submestimação; e as pessoas subestimaram este livro”, diz Murphy, cujo avô traduziu a primeira versão integral em inglês de Mein Kampf, em 1936. “Há um bom motivo para se levar a obra a sério porque ela está aberta a erros de interpretação. Apesar de Hitler tê-la escrito nos anos 20, ele colocou em prática muito do que está escrito ali – se as pessoas tivessem prestado um pouco mais de atenção ao livro na época, elas talvez tivessem identificado uma ameaça”, afirma Murphy.

Ludwig Unger, porta-voz da secretaria de Educação e Cultura da Baviera, disse à BBC: “O resultado desse livro foi milhões de pessoas mortas, milhões de pessoas sofrendo maus tratos, e áreas inteiras destruídas pela guerra. É importante ter isso sempre em mente. E você pode fazer isso quando lê algumas passagens de Mein Kampf junto com comentários críticos adequados”.

No Brasil dos anos 1930, as impressões positivas acerca do livro justificavam-se pela política externa da época, que enxergava na Alemanha um importante parceiro comercial e militar. Porém, na década seguinte,o Brasil se alinhou com os Estados Unidos e as editoras e os meios de comunicação pasaram a publicar matérias extremamente negativas sobre o Terceiro Reich. Mein Kampf nunca mais foi citado como importante obra literária. Com o funcionamento do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), em 1939, o livro passou a ser proibido. O governo Vargas se preocupou em não vincular seu regime ao fascismo europeu, embora houvesse semelhanças. Após a queda do Estado Novo (1937-1945), o livro deixou de ser proibido e o alcance de suas vendas esbarrou apenas no bom senso e na curiosidade dos leitores.

No dia 31 de outubro de 1996, o livreiro Siegfried Ellwanger, fundador da editora gaúcha Revisão, autor e editor de livros chamados “revisionistas” – obras que negam o Holocausto – de cunho antissemita, foi condenado a dois anos de prisão pelo crime de racismo. À época, seu advogado entrou com pedido de habeas corpus alegando que os judeus não são uma raça, daí a impossibilidade do crime imputado ao seu cliente. No julgamento do mérito, o Supremo Tribunal Federal considerou que antissemitismo é, sim, racismo, crime imprescritível e inafiançável, tendo a maioria dos ministros entendido que, apesar de não se poder falar de “raça ariana”, “raça judia” ou “raça negra”, o intuito do dispositivo da Constituição Federal de 1988 era criminalizar e punir qualquer tipo de preconceito direcionado a um grupo de pessoas devido à sua origem, crenças ou outro aspecto que o diferenciasse dos demais.

O Instituto de História Contemporânea de Munique pretende lançar uma versão de Main Kampf com comentários. O objetivo da versão, e de suas anotações nas laterais das páginas, “é mostrar que o texto é incoerente e ruim, em vez de poderoso e sedutor”. A ideia também será implementada em outros países. No Brasil, pelo menos duas editoras brasileiras já preparam edições da obra, que deve chega às lojas ainda em janeiro, causando desconforto e controvérsias. Enquanto muitos defendem uma leitura contextualizada e até obrigatória, há quem se oponha ferozmente à publicação de teor racista. Segundo o gerente editorial da Edipro, Jair Vieira, o livro será lançado no fim de janeiro, na íntegra. Trata-se de uma versão antiga, sem comentários, com tradução de Julio de Matos Ibiapina, apenas revisada e atualizada. A tiragem inicial será de mil exemplares.

A discussão em torno da validade do texto do ditador se arrasta. Evoca dúvidas sobre os limites da liberdade de expressão e da censura. A Confederação Israelita do Brasil(CONIB) está estudando o caso. Advogados foram acionados para verificar a validade constitucional do manifesto ser distribuído em território nacional.

O presidente da Federação Israelita do Rio Grande do Sul, Zalmir Chwartzmann, foi um dos entrevistados em uma matéria da Rede Record sobre o assunto, no dia 11 de janeiro.

 

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